quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Uma taça de vinho ao dia

Santiago Larraín, da Santa Carolina, e o hábito que falta aos brasileiros

Aos 49 anos, Santiago Larraín é um executivo jovial, elegante e dono de um charmoso negócio - tão charmoso quanto desafiador. Pertence a uma família de brokers chilenos, descendente de uma estirpe aristocrática, que, entre outros negócios, adquiriu há cerca seis décadas a Santa Carolina, no Chile. Num tempo em que o vinho era consumido somente no próprio país, os Larraín viram, no vinho, a possibilidade de ir além das fronteiras de seu limitado mercado interno, por meio da exportação. Acostumado a beber vinho em casa, e formado em administração em Cornell, Santiago tornou-se o membro do clã designado para tocar a vinícola, que possui também um braço no agronegócio, com a produção de orgânicos - outro mercado mundialmente promissor.
Larraín: "Nenhum mercado é pequeno"


Hoje, a Carolina Wine Brands, que abriga a Santa Carolina e outras marcas, está entre as maiores vinícolas chilenas; produz 40 milhões de litros de vinho ano e está presente no mundo inteiro. Seu maior mercado hoje é a China, seguida pelo Canadá, Chile e Brasil. Seu carro chefe, o Santa Carolina, vinho de mesa que foi um dos primeiros a chegar ao país, quando se abriram as importações, no começo da década de 1990, é resultado de um esforço que combina ao mesmo tempo tradição e competitividade.

A tradição está na própria marca Santa Carolina, casa fundada em 1875 por Don Luis Pereyra Cotapos. Suas vinhas, assim como a de outros produtores, abasteceram a Europa de matrizes depois que a filoxera acabou com muitos vinhatais europeus. Por isso, as vinhas velhas do Chile em boa parte são ainda mais antigas que as da Europa. A Santa Carolina é pioneira nos estudos do DNA das vinhas, em associação com a Universidade da Califórnia. Primeiro, para a preservação das uvas tradicionais, o que garante a vinícola em caso de infestação pelo filoxera. Em segundo lugar, pensando no futuro. Com o estudo do DNA, será possível em vinte anos experimentar vinhos que ninguém ainda provou.

Tradição e modernidade se juntaram no lançamento esta semana de vinhos da Carolina Wine Brands por Larraín e sua afiada equipe, com quem me reuni em um almoço no restaurante Pobre Juan, em São Paulo, no qual saltaram rolhas somente da casa chilena. O Brasil, mesmo com seu tamanho, para o vinho ainda é um mercado do mesmo tamanho que o Chile, um país inteiro com um produto interno bruto menor que o da cidade de São Paulo. O que não significa que Larraín desistirá de um mercado onde, de certa forma, eles são pioneiros, por estarem aqui desde um tempo em que no Brasil só se tomavam vinhos gaúchos, nos mesmos garrafões de sucos de uva. “Nenhum mercado é pequeno”, diz ele. “Todos os clientes importam.”

O grande esforço da Carolina sempre foi produzir vinhos de alta qualidade a preços convidativos: os vinhos de mesa, que na Europa são consumidos diariamente. Esse é um dos segredos de vida de europeus, principalmente na Espanha, Portugal, França e Itália. Uma taça de vinho no almoço valoriza a refeição diária; diferentemente da cerveja, não cria barriga nem tira a fome. Ao contrário, traz um benefício comprovado pela ciência, que é o de limpar as artérias, por ser oxidante. Quem toma a dose certa de vinho sempre pode comer com menos preocupação e vive mais. Uma taça de vinho ao dia faz bem ao coração e à alma.

Na Itália, o vinho é presença obrigatória em toda refeição. No Brasil, nos acostumamos a pensar que o vinho é uma bebida cara, para ocasiões especiais, enquanto o europeu, com mais educação, raciocina e age de forma contrária. O vinho premium é valorizado como algo especial, mas o vinho de mesa é justamente para ser tomado todo dia. E, para quem quiser fazer contas, beber vinho diariamente não é caro – nem no Brasil.

Os vinhos mais baratos da linha Santa Carolina custam cerca de 25 reais a garrafa e dão para oito taças. Você pode tomar uma taça e guardar sem prejuízo a garrafa na geladeira para repetir a dose a semana inteira. Cada taça custa, portanto, cerca de 3 reais, o preço de uma cerveja ou de uma garrafinha de água mineral.
A bodega Santa Carolina: também há tradição de vinho na América

Mas, então, o que acontece? Tomar vinho é uma questão de hábito. E os hábitos mudaram. Mesmo no Chile, o consumo de vinho ao longo dos anos tem caído, enquanto o de cerveja sobe. No Brasil, é pior ainda.

Hábito é uma questão de educação, de refinamento, de cultura. De saber o que é melhor. Mais frequente nas famílias italianas, que herdaram o costume do vino di tavola, como é servido nas trattorias, dentro de uma jarra ou decanter, o vinho de mesa é pouco usado no Brasil. Puro preconceito. Assim como o de achar que para beber vinho é preciso entender muito ou que se trata de algum grande ritual em que o não iniciado passa vergonha. “Para beber vinho, não é preciso entender de nada”, diz, apropriadamente, Larraín. “É preciso apenas gostar.”

A Santa Carolina possui vinhedos por todo o Chile e quatro bodegas, incluindo a mais antiga e principal, que no passado era nas cercanias de Santiago, mas, com o crescimento da cidade, praticamente foi absorvida por ela. Hoje pode-se visitá-la saindo de uma estação de metrô. Nas suas centenárias dependências se realizam festas de casamento e outras celebrações. Ali se respira a vasta tradição vinícola chilena, que hoje não perde em qualidade e competitividade para vinhos europeus – com preços mais baixos.

Para os brasileiros, sobretudo os que não têm muita experiência com vinho, aí reside outro preconceito derivado do desconhecimento. Para a maioria dos consumidores desavisados, o preço não é somente um fator determinante da compra, como um balizador da qualidade do produto. Um vinho de preço baixo necessariamente seria pior e um vinho caro, melhor. O que não é sempre verdade.

Larraín é jovem para um empresário, mas sabe que hábitos levam tempo para mudar. “Não temos pressa”, ele diz. Para uma bodega já mais que centenária, realmente, o tempo é relativo. O Brasil precisa de uma nova mentalidade para muita coisa. Aí está um bom lugar para começar.

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