De Robinson Crusoe a Armani, a marca que levamos a qualquer lugar
Com estilo, você
pode até mesmo queimar os últimos 10 centavos que tiver no bolso. Porém, o fará
gloriosamente. E não se arrependerá de nada no fim da vida,
quando geralmente se percebe que o dinheiro no banco não acrescenta muita coisa
além de garantir alguma segurança aos dependentes, com sorte.
Dos
mais célebres personagens da literatura de todos os tempos, o náufrago Robinson
Crusoe pode ser considerado também o grande ícone da civilização. Despejado em
uma ilha deserta para viver como os animais, o personagem do escritor Daniel
Defoe, naturalmente um britânico, não abandonou os requintes da sua existência
anterior.
Crusoe
poderia viver como um macaco. Porém, construiu uma casa com todo o conforto,
transformando em algo familiar o cenário que, de outra forma, seria apenas a sua
perdição. Fez utensílios domésticos, roupas, armas, um barco e reproduziu,
ainda que um pouco toscamente, tudo aquilo que teria um cavalheiro em Londres.
Para servi-lo, arranjou até um criado, o índio Sexta-Feira, o primeiro ser
humano que apareceu.
Um homem
de estilo tem estilo em qualquer lugar e circunstância, como bem demonstrou
Defoe. Estilo é uma maneira de fazer as coisas, segundo as necessidades do
indivíduo, com os recursos de que ele dispõe, sempre da melhor forma, tanto
prática quanto para se obter satisfação. Onde quer que ele vá.
O homem
sempre leva consigo a civilização e sua forma de
fazer as coisas, mesmo a uma ilha deserta. Crusoe possui os mesmos elementos de um homem vestido num
paletó Armani. Aquele que sabe escolher o melhor sempre pode fazer o melhor com
os recursos ao seu dispor.
O exemplo
do romance de Defoe ressalta o fato de que estilo não tem ligação com a
quantidade de dinheiro. Alguém pode ter pouco dinheiro e mostrar-se digno e
cheio de classe. Pode, também, ter muito dinheiro e estilo nenhum. Estilo está
relacionado ao caráter e à educação.
O caráter
faz o homem ser corajoso, bom, generoso: qualidades imprescindíveis, para não
dizer elementares, para nos fazer tomar a atitude certa na hora certa. A
educação enriquece o homem e dita como alguém gasta seu dinheiro da melhor
maneira possível.
Claro,
quem tem mais recursos pode mais. Na ilha do mundo contemporâneo, se Robinson
pudesse escolher à vontade uma casa, provavelmente seria em Portofino; sua
roupa seria Armani; seu barco, um Wally; seu criado seria formado em
administração de empresas com MBA em Harvard para ajudar o patrão a administrar
sua fortuna. Mas não são as coisas que fazem de Robinson um homem civilizado, e sim como ele fas as coisas.
É como
diz o personagem Tony Stark, na fina interpretação de Robert Downey Junior no
cinema: quando um provocador lhe pergunta o que seria sem a couraça que faz
dele o Homem de Ferro, ele responde, sem titubear: “gênio, playboy, filantropo,
milionário”. O homem vem antes da armadura.
É verdade
que passamos a maior parte do tempo atrás do dinheiro, mas a real diversão
ainda é como gastá-lo. Nos dias de hoje, estamos tão obcecados com a acumulação
que deixamos de desfrutar a maneira como empregamos o dinheiro e de aprender
novas maneiras de fazê-lo. Em geral, nos acostumamos com a ideia de que
dinheiro demora a entrar e vai embora na velocidade que se leva para preencher
um cheque. Não precisa ser assim.
A verdade
é que a preocupação em ganhar dinheiro muitas vezes faz perder o hábito de
gastá-lo direito. Para isso, mais do que ter o dinheiro, é preciso sabedoria. A
essa sabedoria damos o nome de estilo.
É fácil
gastar dinheiro com restaurantes, roupas, viagens, mulheres ou brinquedos de
gente grande. Muito diferente é ter estilo. Existem infinitos exemplos de
gente que não sabe gastar dinheiro. É fácil
identificá-los nos restaurantes, pois são geralmente aqueles sujeitos que falam
muito alto, pedem tudo o que tiver trufas e gastam horas a discutir a qualidade
dos vinhos.
Você pode
ir a Nova York, comprar roupas Ermenegildo Zegna, almoçar no Le Cirque,
hospedar-se no Saint Regis e nada disso garante que você seja um homem de
estilo. Por outro caminho, pode comprar roupas na West Broadway e tomar uma
sopa no Fanelli, café do avô do boxeador Joe Louis, e ser um homem de estilo
gastando um terço do dinheiro.
Você pode
achar gostoso e elegante fumar charuto, exibindo-se com ele em todos os lugares
onde vai, mas o principal requisito não é poder pagar por tudo, e sim saber
desfrutar. No caso dos charutos, ninguém deveria queimar o equivalente a
uma nota de 50 dólares em alguns minutos sem gostar nem saber o que está
fazendo.
![]() |
| O Le Cirque (acima) e o Fanneli: estilos diferentes |
O homem
de estilo não é aquele que segue um figurino, mas constrói um figurino
harmonioso segundo sua personalidade. Você pode ter nascido na periferia e
nunca ter ouvido falar no queijo chèvre, mas não precisa deixar de ser você
mesmo para adquirir conhecimento. Considere as seguintes boas notícias:
1 – Um
homem nunca está sozinho;
2 - Nunca
é tarde para aprender.
3 - O
estilo não vem do berço ou do dinheiro, e sim da educação.
Qualquer um é capaz
de lapidar e realçar o que há de bom em si mesmo. Trata-se de firmar a sua
personalidade.
Estilo é
algo que pode ser construído por qualquer um, mesmo que não seja da família
real britânica. Aproveite, pois trata-se de uma dádiva dos tempos modernos, que
democratizou a nobreza. O aristocrata um dia já foi novo rico. Se não foi, seu
pai foi. Todo rei do supermercado em geral já teve em sua história uma modesta
padaria.
Por isso,
parte indispensável da educação é não ser soberbo na riqueza. E manter o
orgulho na pobreza. A atitude eleva o homem em qualquer circunstância, seja
rico ou não.
Com o
tempo, o estilo passa a se tornar também um modo de expressão do indivíduo.
Revela um pouco do que ele é e pode ajudá-lo no meio em que trabalha. Pode
também, naturalmente, atrapalhá-lo. Alguém que usa óculos estranhos pode
parecer apenas esquisito ou, num conjunto coerente, sem exageros, utilizá-lo
como um elemento do seu estilo, capaz de dizer algo a seu respeito.
Aqueles
que gostam de quebrar as regras estão geralmente ligado ao mundo cultural: a
música pop, a moda, as artes plásticas ou qualquer outra atividade na qual
convém construir uma persona pública ou um estilo que identifica essas pessoas
com o mundo da criação.
Às vezes, o estilo é também o anti-estilo. Um empresário bem-sucedido pode ser
famoso pelos seus ternos caídos e amarrotados, como Antônio Ermírio de Morais,
falecido ícone entre os capitães de indústria brasileiros. Nele, porém, isso
apenas reforçava sua imagem de empresário incansável, desligado de tudo aquilo
que lembra futilidade e que está muito acima desses detalhes.
Ninguém está
dizendo que, se você sair por aí com roupas amarrotadas, será confundido com um
empresário de sucesso. Será apenas mais uma pessoa amarrotada no planeta. Por
isso, estilo não é apenas aparência, mas algo que tem relação real com aquilo
que somos. Tudo o que não combina realmente conosco acaba soando falso.
Da mesma
forma que Robinson Crusoe descobriu em sua ilha que ainda podia ser um inglês
na selva primitiva, é preciso que você descubra, antes de mais nada, quem é
você mesmo. Então você encontrará o verdadeiro sentido da vida. Ao menos, da
sua própria vida.
Claro
que, se você pensou que a parte mais interessante da vida era o sexo, também
acertou. Testemunhas, contudo, garantem que até o sexo pode ficar melhor com
estilo.


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