terça-feira, 18 de agosto de 2015

O que é estilo

De Robinson Crusoe a Armani, a marca que levamos a qualquer lugar


Dos mais célebres personagens da literatura de todos os tempos, o náufrago Robinson Crusoe pode ser considerado também o grande ícone da civilização. Despejado em uma ilha deserta para viver como os animais, o personagem do escritor Daniel Defoe, naturalmente um britânico, não abandonou os requintes da sua existência anterior.

Crusoe poderia viver como um macaco. Porém, construiu uma casa com todo o conforto, transformando em algo familiar o cenário que, de outra forma, seria apenas a sua perdição. Fez utensílios domésticos, roupas, armas, um barco e reproduziu, ainda que um pouco toscamente, tudo aquilo que teria um cavalheiro em Londres. Para servi-lo, arranjou até um criado, o índio Sexta-Feira, o primeiro ser humano que apareceu.
Crusoe (à esq.) e costume de Armani: o homem leva
consigo a civilização em todas as circunstâncias

Um homem de estilo tem estilo em qualquer lugar e circunstância, como bem demonstrou Defoe. Estilo é uma maneira de fazer as coisas, segundo as necessidades do indivíduo, com os recursos de que ele dispõe, sempre da melhor forma, tanto prática quanto para se obter satisfação. Onde quer que ele vá.

O homem sempre leva consigo a civilização e sua forma de fazer as coisas, mesmo a uma ilha deserta. Crusoe possui os mesmos elementos de um homem vestido num paletó Armani. Aquele que sabe escolher o melhor sempre pode fazer o melhor com os recursos ao seu dispor.

O exemplo do romance de Defoe ressalta o fato de que estilo não tem ligação com a quantidade de dinheiro. Alguém pode ter pouco dinheiro e mostrar-se digno e cheio de classe. Pode, também, ter muito dinheiro e estilo nenhum. Estilo está relacionado ao caráter e à educação.

O caráter faz o homem ser corajoso, bom, generoso: qualidades imprescindíveis, para não dizer elementares, para nos fazer tomar a atitude certa na hora certa. A educação enriquece o homem e dita como alguém gasta seu dinheiro da melhor maneira possível.

Claro, quem tem mais recursos pode mais. Na ilha do mundo contemporâneo, se Robinson pudesse escolher à vontade uma casa, provavelmente seria em Portofino; sua roupa seria Armani; seu barco, um Wally; seu criado seria formado em administração de empresas com MBA em Harvard para ajudar o patrão a administrar sua fortuna. Mas não são as coisas que fazem de Robinson um homem civilizado, e sim como ele fas as coisas.

É como diz o personagem Tony Stark, na fina interpretação de Robert Downey Junior no cinema: quando um provocador lhe pergunta o que seria sem a couraça que faz dele o Homem de Ferro, ele responde, sem titubear: “gênio, playboy, filantropo, milionário”. O homem vem antes da armadura.

É verdade que passamos a maior parte do tempo atrás do dinheiro, mas a real diversão ainda é como gastá-lo. Nos dias de hoje, estamos tão obcecados com a acumulação que deixamos de desfrutar a maneira como empregamos o dinheiro e de aprender novas maneiras de fazê-lo. Em geral, nos acostumamos com a ideia de que dinheiro demora a entrar e vai embora na velocidade que se leva para preencher um cheque. Não precisa ser assim.

A verdade é que a preocupação em ganhar dinheiro muitas vezes faz perder o hábito de gastá-lo direito. Para isso, mais do que ter o dinheiro, é preciso sabedoria. A essa sabedoria damos o nome de estilo.

É fácil gastar dinheiro com restaurantes, roupas, viagens, mulheres ou brinquedos de gente grande. Muito diferente é ter estilo. Existem infinitos exemplos de gente que não sabe gastar dinheiro. É fácil identificá-los nos restaurantes, pois são geralmente aqueles sujeitos que falam muito alto, pedem tudo o que tiver trufas e gastam horas a discutir a qualidade dos vinhos.

Você pode ir a Nova York, comprar roupas Ermenegildo Zegna, almoçar no Le Cirque, hospedar-se no Saint Regis e nada disso garante que você seja um homem de estilo. Por outro caminho, pode comprar roupas na West Broadway e tomar uma sopa no Fanelli, café do avô do boxeador Joe Louis, e ser um homem de estilo gastando um terço do dinheiro.
Você pode achar gostoso e elegante fumar charuto, exibindo-se com ele em todos os lugares onde vai, mas o principal requisito não é poder pagar por tudo, e sim saber desfrutar. No caso dos charutos, ninguém deveria queimar o equivalente a uma nota de 50 dólares em alguns minutos sem gostar nem saber o que está fazendo.

O Le Cirque (acima) e o Fanneli: estilos diferentes
Com estilo, você pode até mesmo queimar os últimos 10 centavos que tiver no bolso. Porém, o fará gloriosamente. E não se arrependerá de nada no fim da vida, quando geralmente se percebe que o dinheiro no banco não acrescenta muita coisa além de garantir alguma segurança aos dependentes, com sorte.

O homem de estilo não é aquele que segue um figurino, mas constrói um figurino harmonioso segundo sua personalidade. Você pode ter nascido na periferia e nunca ter ouvido falar no queijo chèvre, mas não precisa deixar de ser você mesmo para adquirir conhecimento. Considere as seguintes boas notícias:

1 – Um homem nunca está sozinho;

2 - Nunca é tarde para aprender.

3 - O estilo não vem do berço ou do dinheiro, e sim da educação. 

Qualquer um é capaz de lapidar e realçar o que há de bom em si mesmo. Trata-se de firmar a sua personalidade.

Estilo é algo que pode ser construído por qualquer um, mesmo que não seja da família real britânica. Aproveite, pois trata-se de uma dádiva dos tempos modernos, que democratizou a nobreza. O aristocrata um dia já foi novo rico. Se não foi, seu pai foi. Todo rei do supermercado em geral já teve em sua história uma modesta padaria.

Por isso, parte indispensável da educação é não ser soberbo na riqueza. E manter o orgulho na pobreza. A atitude eleva o homem em qualquer circunstância, seja rico ou não.

Com o tempo, o estilo passa a se tornar também um modo de expressão do indivíduo. Revela um pouco do que ele é e pode ajudá-lo no meio em que trabalha. Pode também, naturalmente, atrapalhá-lo. Alguém que usa óculos estranhos pode parecer apenas esquisito ou, num conjunto coerente, sem exageros, utilizá-lo como um elemento do seu estilo, capaz de dizer algo a seu respeito.

Aqueles que gostam de quebrar as regras estão geralmente ligado ao mundo cultural: a música pop, a moda, as artes plásticas ou qualquer outra atividade na qual convém construir uma persona pública ou um estilo que identifica essas pessoas com o mundo da criação. 


Às vezes, o estilo é também o anti-estilo. Um empresário bem-sucedido pode ser famoso pelos seus ternos caídos e amarrotados, como Antônio Ermírio de Morais, falecido ícone entre os capitães de indústria brasileiros. Nele, porém, isso apenas reforçava sua imagem de empresário incansável, desligado de tudo aquilo que lembra futilidade e que está muito acima desses detalhes.

Ninguém está dizendo que, se você sair por aí com roupas amarrotadas, será confundido com um empresário de sucesso. Será apenas mais uma pessoa amarrotada no planeta. Por isso, estilo não é apenas aparência, mas algo que tem relação real com aquilo que somos. Tudo o que não combina realmente conosco acaba soando falso.

Da mesma forma que Robinson Crusoe descobriu em sua ilha que ainda podia ser um inglês na selva primitiva, é preciso que você descubra, antes de mais nada, quem é você mesmo. Então você encontrará o verdadeiro sentido da vida. Ao menos, da sua própria vida.

Claro que, se você pensou que a parte mais interessante da vida era o sexo, também acertou. Testemunhas, contudo, garantem que até o sexo pode ficar melhor com estilo.



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