Deve fazer
uns quinze anos desde que eu me aventurei pelas selvas do Araguaia, onde
encontrei, com alguns amigos de viagem, o Holandês Sonhador. Lembrava o capitão
Nemo, com sua barba loura, os olhos azuis, os modos de um lorde viking. Era
mesmo capitão, só que de uma barcaça enferrujada, onde levava turistas para
passeios em torno da Ilha do Bananal. No tempo da seca, quando o nível do rio
baixa, obstruindo a navegação, o holandês encalhava a nau numa barranca,
transformada num estranho restaurante com inclinação de 45 graus. Assim como o
chef das terras baixas, a excelência da comida também foi inesperada: uma
deliciosa isca de peixe, com molho de tomate e pimenta, regada com uma cachaça
dourada, curtida em tonel de barro. Enquanto nos repastávamos,
acordes flamencos de Paco de Lucia reverberavam pela selva, como num filme de
Werner Herzog.
Desde então, não posso ouvir Paco de Lucia sem salivar por aquela pinguinha brejeira, como um rato branco do Pavlov. Da mesma forma, ao beber uma das muitas cachaças douradas que repousam na cristaleira lá de casa, o violão inconfundível do mestre espanhol parecem soar pela casa.
Desde então, não posso ouvir Paco de Lucia sem salivar por aquela pinguinha brejeira, como um rato branco do Pavlov. Da mesma forma, ao beber uma das muitas cachaças douradas que repousam na cristaleira lá de casa, o violão inconfundível do mestre espanhol parecem soar pela casa.
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| Paco de Lucia e a nossa cachacinha, que tem a sua nobreza |
Felizmente o
Brasil mudou, pelo menos em relação às bebidas mais nobres, e hoje se pode ter um paladar
universal, à altura das melhores referências musicais. Assim como cada vinho
lembra sua terra, e pede a comida da terra, a escolha do tema de um vinho deveria se dar também pelo terroir musical. Para quem pensa dessa forma, a
vantagem é longe dos italianos. Ao mesmo tempo em que faz grandes vinhos, a
Itália produziu um Verdi, um Albinoni, um Rossini, um Puccini. É, certamente, o
país mais eclético, quando se trata de agradar todos os sentidos. Há uma
verdadeira sinfonia de possibilidades para acompanhar os grandes Barolo e
Barbaresco, especialmente os de Gaia, seu melhor produtor.
Ocorre,
contudo, que nem sempre a terra do melhor vinho produz a melhor música, e
vice-versa. A Áustria, onde nasceu Mozart, e a Alemanha, de Wagner e Beethoven,
têm menor tradição vinícola. Já a França, que produz tantos e tão belos vinhos,
é menos fértil na música clássica.
Para quem quiser o fruto absoluto da terra francesa, indico Jules
Massenet, contemporâneo de Wagner. Sua Méditation, da peça Thais, é uma
doce e lírica obra prima para piano e violino. Perfeita, por exemplo, para
acompanhar um borgonha num jantar romântico.
Independentemente de sua origem, há com certeza um tipo de música para
os grandes vinhos, bem encorpados, de grande complexidade e rigor, aqueles que
se bebe com alegria e religiosidade. Os bourdeaux, os borgonha, os grandes
italianos do Piemonte merecem as grandes sinfonias. Pode ser Beethoven, mas não
o Beethoven épico, da Sinfonia número 9, e sim o Beethoven lírico, menos
conhecido, do Concerto para Violino (Romances, 1 e 2), ou da Pastoral. É ali
que o gênio alemão traz o bucolismo do campo, o lirismo, o arrebatamento
romântico que os grandes vinhos evocam. Pela mesma razão, eu colocaria aqui
também o Concerto para Violino de Tchaikovsky, talvez a melhor coisa que já se
escreveu para esse instrumento dedicado aos mais belos e profusos sentimentos.
Descendo um
degrau, chegamos aos vinhos também clássicos, mas de espírito mais leve,
ensolarados, de qualidades a serem desvendadas pouco a pouco pelo paladar: os
toscanos, os grandes chiantis, os melhores portugueses. Vão bem acompanhados
por algo igualmente leve, festivo, como os “Divertimento”, ou a
“Romanza”, de Mozart, peças curtas em que predominam alegremente os violinos.
Ou, para um lirismo com rompantes mais vivos, o Concerto para Piano em A Menor,
Op. 16, de Grieg, um dos meus favoritos, que vai do Allegro Molto Moderato ao
Andante Maestoso do final.
Os vinhos
espanhóis, para mim, são vivazes, cheios de cor, de vida, de drama, como tudo o
que vem do país que produziu Garcia Lorca, o mais ardente dos poetas. Para
acompanhá-los, outros poderiam recomendar a música flamenca, o violão
miraculoso de Paco de Lucia; não eu, que estou muito sugestionado por aquela
pinguinha amazônica. Ficaria com o Concerto para Piano n. 2, em C Menor, Op.
18, de Rachmaninov, que traz em seus acordes algo pulsante, de sangue quente,
como as notas de um Vega Sicilia ou, pouco abaixo, os vigorosos vinhos da
Rioja.
Os
Beajoulais, os vinhos de consumo imediato de cada safra francesa, anunciando a
qualidade do produto daquele ano, são alegres, andantes, vivazes. E um pouco
descompromissados, assim como o novello italiano. Vão bem com a Primavera, das
Quatro Estações, de Vivaldi. O Concerto Para Flauta n. 2, de Mozart. Ou, ainda,
as danças húngaras de Brahms. De preferência se tomados ao sol num jardim.
Caso o espírito seja o familiar, há que se abrir um vinho de mesa. E, entre os vinhos de mesa, ninguém faz nada melhor que os italianos. Torno aos almoços de domingo. Eles ganham contornos de uma vida radiosa na voz de Pavarotti, cantando o Chi Sei Tu, de “Capuletos e Montéquios”, de Bellini. Hoje, felizmente, posso enfim ouvir o Concerto número 1 de Tchaikowsky, acompanhado de um Romitorio di Santedamme, toscano de um pequeno terroir, maravilha descoberta por mim num restaurante romano. Nunca sou tão feliz quanto nessas horas. Mesmo quando, ainda que com o paladar repleto da Itália, vem à boca aquele velho Spaggiari com gosto de infância, matreiro como o menino que também ficou na memória.
Sem a mesma tradição dos grandes vinhos europeus, mas impulsionados pelos esforços científicos, os vinhos do Novo Mundo pertencem a outro território musical. Para quem conhece o Vale do Napa, com sua estradinha sinuosa entre vinhedos geométricos, a evocação é muito diferente. O Napa é jovem, alegre, moderno e dinâmico em suas vinharias, mas tem algo levemente anacrônico na tranqüilidade vitoriana de suas pequenas cidades, como Napa City e Santa Helena. Os vinhos da Califórnia pedem algo com esse espírito, como o jazz. Nada mais adequado, nem mais americano.
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| Pavarotti e o vinho: contornos de uma vida radiosa |
Sem a mesma tradição dos grandes vinhos europeus, mas impulsionados pelos esforços científicos, os vinhos do Novo Mundo pertencem a outro território musical. Para quem conhece o Vale do Napa, com sua estradinha sinuosa entre vinhedos geométricos, a evocação é muito diferente. O Napa é jovem, alegre, moderno e dinâmico em suas vinharias, mas tem algo levemente anacrônico na tranqüilidade vitoriana de suas pequenas cidades, como Napa City e Santa Helena. Os vinhos da Califórnia pedem algo com esse espírito, como o jazz. Nada mais adequado, nem mais americano.
Ao promover
um festival de verão em 1 995, a própria vinheira de Robert Mondavi, o maior e
melhor produtor do Napa, deixou uma compilação de músicas em CD comemorativos
(“Songs From The Vineyard”), que julgou combinar perfeitamente não só com a
ocasião como com a alma de seus vinhos. São grandes peças de jazz gravadas nos
anos 70, como “A Tisket-A Tasket”, composto e interpretado por Ella Fitzgerald;
“C Jam Blues”, de Duke Ellington, na versão do Oscar Peterson Trio; ou “Garota
de Ipanema”, cantada em inglês por Stan Getz. E há Dizzy Gillespie (“Blues After Dark”),
Sarah Vaughan (“All of You”), Joe Williams (“Shake, Rattle and Roll”) e muito
mais.
Eu recomendaria também o jazz para os uísques. Nada combina melhor com um 18 anos do que My Funny Valentine, na voz e trompete de Chet Baker, que evoca os bares pulgueirinhos e fumacentos do Village, onde a melancólica ressaca ganha lirismo existencialista nas madrugadas perdidas de Nova York. Ali, nos bares do Village, onde tocam as melhores bandas de jazz, pode-se escolher entre Cole Porter, Gershwin ou algo mais contemporâneo - meu americano favorito hoje é David Mead, autor de maravilhas como Beauty, no álbum Mine and Yours.
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| Chet Baker em 1953 e o uisquinho: o clima noturno dos bares de jazz no Village, em Nova York |
Eu recomendaria também o jazz para os uísques. Nada combina melhor com um 18 anos do que My Funny Valentine, na voz e trompete de Chet Baker, que evoca os bares pulgueirinhos e fumacentos do Village, onde a melancólica ressaca ganha lirismo existencialista nas madrugadas perdidas de Nova York. Ali, nos bares do Village, onde tocam as melhores bandas de jazz, pode-se escolher entre Cole Porter, Gershwin ou algo mais contemporâneo - meu americano favorito hoje é David Mead, autor de maravilhas como Beauty, no álbum Mine and Yours.
Claro que
bebidas e música dependem do seu espírito. Você pode trancar-se numa sala
secreta com um Romanée Conti de alguns milhares de dólares e tomá-lo sozinho,
como quem comprou um Picasso somente para si. Nessas ocasiões, se permite, no
máximo, a presença silenciosa do cachorro pachorrento com a bochecha sobre as patas. A bebida e a música favorecem o
encontro do homem consigo mesmo – e, sobretudo, com seus méritos. Na solidão, eu recomendaria o Noturno, Opus n. 15, em Fá Maior, de Chopin. Nada
mais solene, introspectivo, digno de um retiro vitorioso. Ou, então, a sonata
“Claire de Lune”, de Beethoven, talvez a canção mais bela que já se fez ao
piano, que nos deixa em leve estado de suspensão. Apesar da presença do quadro de Picasso, não esqueça de fechar os olhos.
Música e bebidas são sentimento: não se pode fugir
dele.



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