segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O príncipe rebelde

Criados pelo próprio Fidel Castro, os Lanceros são o legítimo charuto dos revolucionários


Existem poucos lugares tão lúdicos no mundo quanto o centro velho de Havana, em Cuba. Naquele estado de ligeiro enlevo ao qual chegamos depois de alguns goles de mojito feito com o puro rum cubano, ali se pode andar entre as praças e os bares do eixo que vai da velha Catedral de San Cristóbal à Floridita del Medio. Ali, um Ernest Hemingway de bronze evoca os tempos em que o escritor sentava àquele mesmo balcão para tomar seus famosos daiquiris e, claro, fumar o seu charuto. No caminho, um planíssimo calçadão é pontuado por praças, bares e restaurantes, onde a salsa nunca pára.

No meio de tanta gente sempre a cantar, que não parece estar ali por causa dos turistas, mas pela simples alegria de viver, ou por falta de outra coisa para fazer, um passeio ou uma bela refeição devem terminar sempre com um lancero. Não somente por causa das peculiaridades do seu sabor, muito associadas à excelência do charuto cubano, ícone do máximo prazer. É também uma questão de estilo.

Comprido, fino, elegante, o lancero nos empresta com perfeição a atitude do bem viver à cubana, longe das preocupações triviais, feita ao mesmo tempo de um certo desdém e de uma satisfeita superioridade. Quando se tem um charuto desses nas mãos, nem mesmo a ruína de toda uma Nação é capaz de tirar a altivez e o orgulho revolucionário.

A medida tradicional do lancero cubano é de 7,5 polegadas de comprimento com calibre 38 – mais fino que o Churchill, um charuto quase do mesmo tamanho (7 polegadas), porém com anel 48. Isso tira do lancero o visual associado ao poder do seu jeito mais antigo e bastante satirizado. Se o Churchill é o velho rei dos charutos, o lancero é o príncipe. Diferente do Churchill e dos robusta, outro charuto da classe dos coronas, dileto no mundo executivo, curto e de diâmetro mais largo, o lancero tecnicamente pertence à categoria dos panatelas, em razão de sua espessura.

O lancero não é sobranceiro por acaso. Sua criação, relativamente recente, atendeu a um desejo do próprio Fidel Castro. Os primeiros foram feitos na fábrica de El Laguito, em 1960, pela Cohiba, que o governo cubano fomentava para ser uma fornecedora então exclusiva de charutos para as altas autoridades do governo – a começar, claro, pelo Grande Comandante.

No início, o El Laguito N.1, como o lancero começou a ser conhecido em Cuba, era um charuto enrolado especialmente para Fidel. Mais tarde, quando a Cohiba foi autorizada a vender seus charutos para particulare e o Cohiba Lancero se tornou um produto de mercado, o líder cubano mandou fazer outro charuto similiar, o Trinidad, de mesmo comprimento e diâmetro um pouco maior (anel 40) para afagar com um presente exclusivo os políticos e diplomatas dos países com os quais Cuba mantém relações.

Quando a venda dos Trinidad também foram liberadas, suas medidas serviram como um novo padrão para toda a classe de lanceros – que deve o nome com o qual ficou conhecido ao formado sugestivo de uma lança medieval, arma tão anacrônica quanto evocativa de um tempo em que os homens se atiravam à luta de maneira romântica, num completo desapreço pela vida sem glórias. Há quem diga que a inspiração do charuto, incorporada ao estilo de quem o fuma, é o próprio Dom Quixote, célebre anti-herói do romance de Miguel de Cervantes, que lutava contra moinhos de vento como se fossem gigantes. E não há nada mais cubano que isso, por sinal.


Fidel (acima) e Tchê com Lanceros: o símbolo dos revolucionários,
que, segundo se diz, teria sido inspirado em Dom Quixote

Até hoje, o Cohiba Lancero, o Montecristo Especiale e o Trinidad Fundadore são os lanceiros mais cobiçados. Tendo nascido como um charuto exclusivo, eles sempre estiveram associados à condição de raridade. Depois da Cohiba, a segunda companhia a fazer um lancero foi a Davidoff: o célebre Davidoff N. 1, que deu renome à marca. Quando a Davidoff retirou-se da República Dominicana, brigada com o regime comunista, manteve o charuto em seu portfólio, porém com uma produção irregular, já que a qualidade dos lanceros depende essencialmente das safras de fumo capazes de produzir as melhores folhas para encapá-los.

Mais recentemente, com o aparfeioamento da produção, a Davidoff criou o Millenium Blend Lancero, o primeiro a ser fabricado de maneira regular pela empresa em duas décadas. Companhias dominicanas e nicaraguenses também fizeram seus próprios lanceros para aproveitar o revival, como La Flor, Joya de Nicaragua, Padilla, 601 e Nestor Miranda. Todas têm em vista sobretudo o mercado norte-americano, onde os charutos cubanos não podiam chegar durante o bloqueio econômico americano, que durou mais de meio século.

Opinião comum é de que o tamanho do charuto tem mais relação com o estilo do que com a garantia de prazer. “Apesar do que rezam certos mitos, não há correspondência entre o tamanho e a intensidade e a força de um charuto”, escreveu Marvin Shanken, editor da Cigar Aficionado, em O Pequeno Livro do Charuto. “Os charutos grandes, feitos com fumos suaves, têm sabor rico e delicado, ao passo que os pequenos de sabor forte são igualmente potentes.”

Porém, algumas características fazem do lancero um charuto de sabor realmente especial. Por definição, a folha da capa do charuto vem das melhores folhas de fumo, mais espessas e deliciosas. Num charuto mais fino, diminui a quantidade de fumo do interior e esse sabor da folha da capa se torna mais presente. Por causa do comprimento, no lancero podemos aproveitar esse efeito por mais tempo.

Assumindo também como verdade que a mão de quem enrola o fumo do charuto faz muita diferença, os lanceros são um produto state of the art. A maneira como o charuto é enrolado interfere tanto na queima quanto no sabor. E é preciso alguém muito habilidoso para fazer um charuto fino e comprido que queime de forma homogênea e seja saboroso do começo ao fim. Lanceros mal feitos quase os tiraram do mercado: não há nada pior do que comprar uma caixa de charutos e descobrir que estão entupidos por má conformação e ficar lutando com aquele gosto de cinza.
A produção do Lancero: mais trabalhoso, com maior presença
do sabor da capa e, pelo tamanho, prazer 
mais por tempo

Agora, porém, o esforço dos fabricantes em trazer o lancero de volta se associa a uma declaração de qualidade. “Fazemos lanceros para conhecedores e para nós mesmos”, diz Jose Oliva, presidente da Oliva Cigar Co., que lançou o Serie V Lancero.

Para muitas marcas, especialmente as que estão fora de Cuba, lanceros passaram a ser como carros topo de linha, elaborados para um número menor de pessoas, mas que, uma vez bem feitos, podem alavancar seu prestígio. Tudo indica que, dessa vez, os lanceros tenham vindo para ficar. Mesmo que seu mercado permaneça restrito, é bom saber que ainda existe gente capaz de distinguir a diferença entre o ótimo e o melhor.

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