quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Uma volta com Juan Manuel Fangio

Quem achava perigosa a Fórmula 1 da era de Emerson Fittipaldi precisa ver este vídeo aqui. Uma volta por meio de uma câmera on board com Juan Manoel Fangio, considerado por muitos ainda o maior piloto de todos os tempos, mostra que os princípios da pilotagem já estavam lá - a curva fechada, o pneu quase tocando a zebra (que mais parecia um paralelepípedo), a força para segurar o carro abrindo na curva. Só que não havia nem santoantônio para proteger a cabeça do piloto e a impressão  é de que era milagre alguém sair com vida dessa profissão.

Não obstante, tudo isso era natural para os homens de antigamente. Como para o homem do futuro deverá ser andarmos hoje dentro de carros com airbags que explodem na cara dos passageiros numa batida. O fato é que ninguém pode deixar de viver o seu tempo -  e o medo, além de tirar o prazer da vida, acaba por torná-la ainda mais perigosa.



sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A beleza do equilíbrio: o terno de acordo com o corpo masculino

O equilíbrio entre rosto, pescoço, colarinho e gravata é fundamental

A noção de equilíbrio é um dos princípios básicos da sabedoria. Estar em harmonia com a vida, a natureza, as outras pessoas é um princípio milenar ds chineses, o povo que cultiva a arte de equilibrar pratos na ponta da vareta e outras maravilhas que os  candidatam a um posto mais elevado na espécie humana. Porém, não é preciso ser chinês para buscar o equilíbrio, um conceito importante também para o vestir.

É difícil saber o que é um homem feio; às vezes, a feíúra pode ser aquele toque de masculinidade que muitas mulheres gostam. Porém, qualquer homem pode aprender a conhecer a si mesmo e saber como fica melhor dentro da roupa, a partir de suas características físicas; compensar desequilíbrios e adquirir melhor postura.
O tamanho certo do paletó:
1. Ombros largos demais;
2. Ombros estreitos demais;
3. Corte equilibrado.

Para aquele que vão ao trabalho de terno, é importante buscar peças que estejam em harmonia com o corpo. Paletós com ombros largos demais dão a impressão de que a cabeça é pequena. Paletós muito estreitos no ombro fazem a cabeça parecer grande demais. Como diriam os chineses, o equilíbrio está no meio, para um conjunto harmônico.

Se você é baixo e magro, pode parecer mais alongado e forte por meio da roupa. Atenção para as seguintes recomendações do velho mestre da moda, Fernando de Barros, para obter esse efeito:

1. Os ombros do paletó podem ser um pouco elevados e levemente alargados.
2. O comprimento do paletó deve ser o menor possível, sem fugir à regra de cobrir a curva do bumbum.
3. Paletós de três e quatro botões deixam a silhueta mais longa.
4. Não use corte atrás do paletó. Ele deve ter cortes laterais, ou não ter cortes.
5. Mangas longas demais fazem o homem pequeno parecer ainda menor. Use mangas longas.
6. Padronagens com desenhos verticais, como listras e ternos risca de giz, favorecem a impressão de alongamento. Padronagens como xadrez devem ter ênfase nas linhas verticais.
7. Suspensórios estão meio em desuso, mas também alongam a silhueta.
8. Calça do mesmo padrão que o paletó alonga o perfil. Padrões diferentes dividem o terno ao meio.

Homens baixos e gordos podem obter com o paletó o efeito de estreitar e alongar a silhueta com as seguintes medidas:

1. Use paletós de dois botões, mais recomendáveis que de três botões ou abotoamento duplo.
2. Use cortes laterais nos paletós.
3. Prefira tecidos escuros.
4. Use calça na altura da contura. Não afivele a calça na barriga, que dá um caimento desleixado.
5. Use gravatas com listras, que dão ideia de movimento.
6. Use colarinhos mais compridos e pontudos.
7. Evite barra italiana, que deixa a calça mais atarracada.

Para homens altos, a lei do equilíbrio pede:

1. Evitar ternos de ombros largos.
2. Use ternos de dois botões, que compensam o perfil longilíneo. Recomenda-se também jaquetões de abotoamento duplo.
3. Prefira listras horizontais, ou xadrez com predominância das listras horizonatis.
4. Lapelas podem ser mais largas.
5. Colarinhos e punhos brancos em camisas coloridas quebram a percepção de comprimento. Prefira colarinhos mais abertos e menos pontudos.
6. Sapatos que excem um pouco a costura do couro dão impressão de estar mais plantado no chão.

Homens de rosto longilíneo e pescoço longo
devem usar colarinho mais aberto (italiano) ou sem ponta (acima)
e paletó não muito largo
Aos atléticos, pede-se um maior equilíbrio entre as linhas do ombro e da cintura, o que compensa o maior desenvolvimento do tórax. Recomenda-se:

1. O pano deve cair suavemente sobre os ombros, de form que pareçam naturais. Não deixe o paletó esticado entre um ombro e o outro.
2. O paletó deve ser largo e comprido obastante para ficar proporcional aos ombros. Porém, deve ser também curto o suficiente para não ficar desproporcional em relação ao comprimento das pernas.
3. Use paletó de dois botões ou jaquetão. Evite os três botões.
4. Prefira padronagens de tecido com linhas verticais, que aproximam visualmente o ombro da cintura.
5. As calças devem ficar altas na cintura, no máximo possível.

Quanto melhor o terno, com tecidos mais avançados e leves, menos ele pesa. Quanto melhor o tecido, melhor o terno. Porém, isso não é tudo. Para ficar alinhado, um terno precisa ter o corte correto. E isso faz com que o alfaiate ainda seja importante.

Tecidos leves são a microfibra e o algodão. Use também a lã fria, que permite manter a temperatura do corpo em qualquer situação. Como isolante, mantém o corpo fresco no calor; no frio, mantém o corpo aquecido. É o mesmo princípio que faz com que o tuaregue no deserto use trajes de lã, apenas com os olhos para fora. se há algo deselegante, é alguém suando em bicas dentro do paletó. equilíbrio, nesse caso, é estar sempre confortável dentro da roupa, e não em sofrimento.

O colarinho da camisa tem um papel importante e deve ser adequado também conforme o biotipo. Cada um terá um formato mais adequado para o seu rosto e pescoço. Homens de pescoço grosso e curto precisam usar colarinhos mais baixos e pontudos, para a.longar a silhiueta. Já homens de pescoço comprido devem prefereir colarinhos menos pontudos e mais abertos.

Colarinhos bem feitos não deixam espaço no vértice, onde se faz o nó da gravata. Não podem ser apertados demais, de modo a asfixiar, nem largos demais, deixando o pescoço flutuante. O ideal é que ele esteja junto ao pescoço, e tenha folga suficiente para que se passe um dedo entre a pele e o tecido. Nunca deixe de experimentar a camisa na loja.

O equilíbrio do conjunto camisa-gravata-terno é essencial. Com roupas mais claras e paletós esportivos, os colarinhos devem ser simples. Com ternos mais escuros e trajes a rigor, eles devem contribuir para dar destaque à roupa. Jamais use uma camisa com o colarinho ou os punhos puídos. E prefira os colarinhos com barbatanas, quando ele não tiver botões.


Homem de pescoço curto pede colarinho mais baixo

Pescoço comprido fica melhor com colarinho mais alto

Rosto fino pede colarinho menos pontudo e mais aberto.

Quem tem rosto arredondado deve usar colarinhos pontudos (à dir.)




quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Troféu Fair Play para: Carla Bruni

Com este post, o blog O Homem Casual inaugura o Troféu Fair Play, dedicado a mulheres admiráveis, que além da beleza são capazes de dizer coisas que só os homens são capazes de compreender.

Estamos abertos a indicações dos leitores.

Para inaugurar esta seção, elegemos Carla Bruni: ex- modelo italiana, criada no castelo da família, Castagneto Po, mulher do ex-primeiro ministro francês Nicolas Sarkozy, cantora, compositora e monumento natural da Itália.

Perguntada certa vez sobre como era ser primeira-dama da França, Bruni respondeu que era bom estar casada com um homem "com poder nuclear". Isso já faria dela nossa musa do primeiro troféu Fair Play, mas a homenagem vai pela declaração em entrevista ao nosso Roberto D´Ávila, que em seu programa lhe perguntou porque resolveu cantar. "Porque ninguém queria gravar as músicas que eu compunha", disse ela.

Nada melhor que uma bela mulher com capacidade de rir de si mesma. Até porque Bruni é uma grande cantora e compositora.

Aqui vai uma seleção de seus grandes momentos. E um video de Bruni cantando Quelqu'un M'a Di (Alguém me disse), destinada a se tornar um clássico da música francesa, com ela cantando ao violão (Obrigado, Youtube).
















quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Os espumantes Ferrari e a "poesia da terra"

Os vinhedos (acima) e a Cantina, em Trento:
uva francesa, espírito italiano

O catarinense Adolar Léo Hermann conta, com orgulho, que conheceu a luz elétrica somente aos nove anos de idade. Chegou a deixar de comer para pagar a escola. Executivo de uma indústria catarinense, largou o emprego com um alto salário para se dedicar a um hobby de aposentado - uma importadora de vinhos, uma paixão pessoal, assim como a Itália. Há cerca de quinze anos, quando passeava com a mulher, Judila, pela região de Trento, passou diante da cantina Ferrari - não a montadora de carros, e sim a casa dos quase igualmente célebres espumantes trentinos. Recebido por uma faxineira, foi levado ao diretor de vendas - e explicou que queria apenas comprar meia dúzia de Giulio Ferrari, espumante topo de linha da casa, para consumo pessoal. "Sou ainda um importador muito pequeno", explicou.

Nesta quarta-feira, Adolar reuniu no salão de festas do restaurante Cantaloupe, em São Paulo, vários motivos para celebrar. Há sete anos sua importadora, a Decanter, importa os espumantes Ferrari. É hoje uma das maiores empresas do ramo no Brasil - e virou um negócio onde trabalha toda a família. O Brasil se tornou um mercado importante para o vinho, muito diferente dos tempos em que Adolar conheceu o espumante em suas passagens de negócios por São Paulo, quando almoçava no então célebre restaurante Massimo, na Alameda Santos. Naquela época, em que importações estavam proibidas na prática, o chef Massimo Ferrari trazia garrafas do espumante com seu sobrenome dentro da própria mala de viagem, disputadas a tapa na chegada. O então ministro todo-poderoso do regime militar, Delfim Netto, comprava sozinho a metade. O resto era disputado entre os outros clientes.

Para promover o Ferrari, Adolar agora trouxe de Trento seu presidente, Matteo Bruno Lunelli, terceira geração da família que comprou a cantina, seus vinhedos e as aspirações de seu fundador, Giulio Ferrari. Um visionário que decidiu trazer uvas chardonnay, tradicionais da Champagne, para as encostas trentinas, onde a altitude compensou a latitude mais baixa. E o clima muito temperado, de sol forte durante o dia e frio noturno, enriquece os vinhatais. Além dos espumantes chardonnay, a Ferrari produz espumantes rosé, de pinot nero, além de outras bebidas artesanais, como o prosecco e a grappa.


Matteo Lunelli: "celebração da Itália"
É o espumante, porém, que faz o orgulho da casa. "Nós celebramos o estilo de vida da Itália", disse Matteo, um jovem e orgulhoso executivo que colocou a si mesmo, seu filho e o resto da família no idílico vídeo em que a Ferrari mostra seus vinhedos e instalações, dignas de quadros da Renascença. No almoço, após uma breve história da Ferrari, contada por Matteo, uma pequena degustação mostrou bem porque este parece ser o momento da casa italiana. Com produtos cerca de 30% mais baratos que seus equivalentes franceses, o espumante Ferrari é um produto realmente único, com a personalidade de Trento, como queria seu fundador - que se esforçou para fazer dele um produto específico, oTrentodoc, diferente dos champanhes e outros espumantes feitos à base de chardonnay.


O Perlè Rosé e o Brut: espumante para ser servido
também com a comida
Além das peculiaridades de seus terroir, sediados ao redor de um belo palácio florentino - um dos quais, de onde se produz o Giulio Ferrari, isolado no meio de um bosque - os vinhos Ferrari passam por um processo peculiar. Sua segunda vinificação é realizada dentro da garrafa, onde as leveduras permanecem por quase um ano, antes do arrolhamento definitivo. Clima, terra e essa esperteza artesanal fizeram do Ferrari, ao contrário do que se poderia esperar de um país que tem os Barolo e outras maravilhas, o vinho mais premiado da Itália, nominado 26 vezes com os célebres Tre Bicchieri (três taças, as estrelas do incontestado  guia Gambero Rosso).

Enquanto o prosecco é um espumante mais leve, ideal para ser bebido antes de uma refeição, o Ferrari pode ser tomado acompanhando a comida. Sem ser um vinho branco, nem um prosecco, poderia ser considerado um vinho superfrisante, que acompanhou a sequência de pratos servidos no Cantaloupe, do carpaccio de lula, servido com o Perlè Breut 2005, à codorna e as vieiras que surgiram com o Perlè Rosé e o Giulio Ferrari para a prova de jornalistas, sommeliers e outros convidados.
Adolar: sonho à italiana


Na Itália, o Ferrari é menos conhecido por este nome, mais lembrado por outro ícone nacional, e mais pela expressão cunhada pelo seu fundador: "Perlè" (indicativo das bolhas do espumante, que seria "perolado"). O Perlè Brut 2005 que experimentamos é um espumante menos salgado que a champanhe convencional e, por essa razão, mais aberto aos sabores de fruta que tornam a bebida ao mesmo tempo fresca e complexa.

Ao preço de 370 reais a garrafa, é uma gloriosa saída para estes tempos bicudos, em que uma boa champanhe não sai por menos de 500 reais a garrafa e se procura vinhos de alta qualidade a preços menores. O Perlè Nero 2007, um rosè feito de pinot noir, é um espumante primoroso, que não perde para grandes vinhos. De grande complexidade e versatilidade, pode ser servido antes da refeição ou, por sua característica, prosseguir na entrada e no prato principal - um vinho completo para todo o jantar.


A garrafa do topo de linha:
maravilha a melhor preço
O mais celebrado produto da casa, porém, é o Giulio Ferrari. O Riserva del Fondatore 2002 que experimentamos derruba qualquer preconceito. O primeiro, de que um espumante, assim como qualquer vinho branco, deve ser tomado jovem, para não perder suas características. Talvez devido ao processo de vinificação dentro da garrafa, o Ferrari segue também a velha máxima segundo a qual o vinho melhora com o tempo. E que grande vinho! Não apenas possui grande riqueza, adicionada à refrescância do espumante, como eleva a comida a um patamar superior. E custa também bem menos que uma garrafa de Dom Perignon.

Os italianos são mestres do bem viver - e espertos. Tomaram a uva da Champagne para fazer um produto muito próprio e capaz de traduzir também o seu espírito. Um bom motivo para comparar o espumante italiano e o francês. Ou melhor: para subir um pouco mais no mapa, naquela viagem a Veneza, e conhecer as belas montanhas trentinas, de onde vem esse eflúvio verdadeiramente divino que os italianos gostam de chamar de "a poesia da terra".



terça-feira, 1 de setembro de 2015

Ternos: como usar

Em muitas corporações, o terno ainda é a peça de roupa obrigatória: uma linguagem comum que tem relação também com um código de conduta. Assim como o fraque, o meio-fraque e a casaca em casamentos, é considerado o traje formal do trabalho. Se você tem de usá-lo, porém, é importante que o faça bem.

Pode parecer incrível, mas houve tempo em que o paletó era considerado informal demais. No século XIX, os artesãos e cavalheiros convictos resistiram a aposentar os antigos casacões europeus. "Os paletós não passam de uma roupa miserável e da vida boêmia", escreveu em 1835 Henry Murger, escritor e poeta francês, autor de Cenas de Uma Vida Boêmia.

De Paris, onde iam gastar seu dinheiro os capitães de indústria do mundo inteiro, o uso do terno se espalhou, identificando-o com o próprio espírito do capitalismo.  Por isso, o terno permanece hoje muito associado à imagem do poder. Embora o próprio capitalismo tenha se modificado e esteja hoje mais dependente da criação, o que faz com que a roupa vá se tornando também menos rígida.

O terno contemporâneo já é mais leve que os antigos, com paletós de dois botões e ombros desestruturados, isto é, que acompanham o ombro de quem o veste, sem enchimento. Com três ou quatro botões, ele se torna ainda mais esguio e sedutor. O desenvolvimento dos tecidos ajudou a fazer ternos mais leves, longilíneos, que podem ser utilizados no verão e se moldam bem ao corpo.

Padrões conhecidos simplificam a escolhas de roupa; a elegância, porém, fica nos detalhes. Atenção portanto para regras de alfaitaria que são exigidas no ajuste de um paletó:

1. O paletó deve ser comprido o suficiente para cobrir as nádegas. Normalmente é também a altura dos punhos fechados, com os braços abaixados.
O caimento sobre o ombro
deve ser natural

2. O paletó deve cair sobre as costas, de uma forma natural, sem vergar para dentro ou para fora. Deve estar cheio no espaço entre as omoplatas e não impedir o livre movimento dos braços.

3. No paletó de um botão, abotoa-se o botão único. Dois botões, abotoa-se o primeiro. No de três, somente os dois de cima. No de quatro, também se abotoam somente os dois superiores. Mesmo no traje formal, a ideia é sugerir certa casualidade. Por isso, nunca se abotoam todos os botões, incluindo no jaquetão, onde se abotoa somente o primeiro botão.



4. A manga do paletó deve ser um centímetro mais curta que a da camisa. Por quê? Trata-se de um padrão que vem do tempo em que as camisas eram fechadas com abotoaduras. E estas eram feitas para aparecer. Além disso, ressalta-se a ideia de sobreposição de roupas com um certo critério. Quando o punho da camisa não aparece, a sensação é de que o paletó está comprido demais.

A camisa deve aparecer 1 centímetro
além da manga do paletó.
Paletó mais comprido que a camisa
dá impressão de desleixo.


 5. A calça deve cair suavemente sobre os tornozelos. Não pode ser curta nem comprida demais. Com o sapato, a barra deve estar no máximo até o meio do calcanhar, cortada em linha reta até a metade do peito do pé.

Altura ideal da barra
6. A calça social pode ou não ter pregas. As pregas são mais clássicas; sem pregas, o corpo se torna mais longilíneo e contemporâneo. Calças com pregas não podem ser largas demais. Sua vantagem é disfarçar o volume de objetos deixados no bolso. O ideal é jamais ter algo nos bolsos da calça; para isso servem os bolsos internos do paletó. E as pregas não podem abrir quando está no corpo.

7. O vinco dianteiro da calça deve ser reto e descer e descer exatamente sobre o joelho até a o sapato.

Vinco da calça: reto sobre os joelhos
8. Calça de ternos de cores lisas (cinza, azul marinho, bege) pode ser utilizada sem o paletó, com outras roupas. Peças com algum tipo de estampa só podem ser utilizadas no próprio conjunto.

9. A parte de trás do colarinho da camisa não pode ficar coberta pela lapela do paletó. Nem alta em relação a ela. O colarinho deve aparecer em cerca de um dedo.
O colarinho deve aparecer cerca
de um dedo atrás do paletó. Não
pode ficar escondido, nem
alto demais

10. O colarinho não deve estar folgado demais, deixando o pescoço dançar, nem apertado demais.O ideal é que seja possível passar um dedo entre a pele e o tecido.

11. As mangas da camisa devem ser compridas o suficiente para não repuxar o punho com o braço dobrado. E não pode ser folgadas demais nem permitir que a manga vá além do punho, cobrindo a mão.

12. Pouca gente usa o colete. Para que o colete serve ? É também uma questão de tradição. Antigamente, os homens usavam o colete para manter-se alinhados dentro do escritório, quando tiravam o paletó. Hoje ele é um elemento de estilo a mais: usa-se também como uma peça que pode fugir ao convencional, na cor ou na padronagem. Quem for usá-lo deve saber que a gravata deve estar ligeiramente ondulada no triângulo onde ela se insere (um tanto para fora, a partir do colarinho).  

13. A gravata deve ter as pontas alinhadas, sobrepostas uma sobre a outra. É deselegante a parte da frente estar mais comprida que a de dentro ou vice-versa. O extremos de ambas as pontas deve cair na altura do furo do cinto. Nem acima, nem abaixo.

14. Podem parecer muitas as regras. Porém, os detalhes fazem muita diferença. Um pequeno erro denuncia não somente a possível falta de zelo, como desconhecimento. O terno precisa ser usado de forma impecável. Como numa página em branco, em que qualuqer pequena mancha chama a atenção, um deslize na roupa formal coloca também tudo a perder.




segunda-feira, 31 de agosto de 2015

As duas regras para a construção do estilo

O padrão de elegância vem mudando ao longo dos tempos, de acordo com o avanço da tecnologia e as mudanças de comportamento. Na onda do New Look, com que Christian Dior revolucionou a moda feminina, Pierre Cardin promoveu também a maior mudança da roupa masculina. A camisa, antes sempre branca, passou a ter cor. O blazer, usado apenas para os iatistas, se tornou uma peça fundamental da roupa casual. Graças a Cardin, os homens deixaram de ser personagens de um filme em preto e branco.

Outro passo adiante deveu-se a Giorgio Armani, que desestruturou os ternos, tornando-os mais leves e moldados ao corpo masculino. A incorporação do jeans à roupa do dia a dia, com a participação especial de outro mestre, Calvin Klein, foi o golpe final na roupa clássica. Daí em diante, passou a caber ao homem o direito de escolher sua roupa. E, com isso, destacar-se na multidão. 

O resultado é que hoje temos uma grande liberdade de escolha ao vestir. Isso gera também  o risco: aquele que não encontra o seu caminho sabe que pode queimar sua imagem, tanto quanto aquele que tem essa sabedoria pode fazê-la brilhar.

O homem quer sempre parecer bem sucedido: ou por ter chegado lá, ou por querer chegar lá. Para isso, construir a imagem certa, tanto na vida pessoal quanto profissional, é essencial . A roupa é o maior cartão de visitas masculino; tem de passar a imagem desejada. Seja para alcançar algum objetivo, ou mesmo para mostrar alguma vaidade, a construção de um estilo pessoal passa pelas escolhas que fazemos da roupa.

Vestir-se bem não significa seguir modelos. Homens reconhecidamente elegantes quebraram padrões justamente como reafirmação de uma certa personalidade. Em 1901, Paul Deschanel, presidente da França, causou alvoroço ao casar-se de fraque, e não de casaca, então obrigatória. O jovem príncipe de Gales, que depois se tornou o rei Eduardo VIII - e abdicaria por amor, ao casar-se com Miss Simpson, uma plebeia - foi um contestador dos rígidos padrões da corte britânica.

"Toda minha vida fui um rebelde contra as regras do vestir, que refletiam as rígidas convenções sociais do meu universo familiar", escreveu ele em 1960, num livro intitulado "O Duque de Windsor, álbum de família". "Assim, ousei vestir-me de outros modos, que traziam mais conforto, mas também como uma maneira simbólica de aspirar à liberdade."

A roupa, portanto, serve aos nossos propósitos - e não o contrário. Com suas inovações, o Príncipe de Gales deu seu título ao padrão de tecido de que mais gostava - transportou para os paletós as riscas antes utilizadas apenas no rugby. E mais: tornou famosa a alfaiataria londrina, até hoje uma referência de elegância e criatividade.


A evolução da moda masculina: cada vez mais possibilidades

A primeira regra para a construção de uma imagem hoje é que a roupa nunca deve parecer forçada, ou seguir padrões automatizados, típicos de quem apela para um modelo por não ter opinião própria ou não saber o que fazer. Também é deselegante aquela ar de quem acabou de sair da loja, quase com a etiqueta pendurada na gola."Tudo o que está em cima do corpo deve ter a aparência de usado", já dizia em 1804 Auguste Kotzebue, dramaturgo e escritor alemão, no livro Lembranças de Paris.

A segunda regra de ouro é que o homem precisa  adequar os elementos que mais o agradam ou que ele acha necessários, de uma forma coerente e natural. Esse conjunto, que é propriamente o estilo, hoje é mais importante do que "estar na moda" - um conceito muito relativo, especialmente numa era que, com a ajuda da informação digital, coloca no tempo presente todas as influências de todos os tempos.

"Estilo nada tem a ver com a moda, ainda que esteja ligado a um compromisso com a evolução das roupas, determinada por estilistas ou acontecimentos que tragam mudanças de comportamento", escreveu na década de 1980 o jornalista Fernando de Barros, considerado o papa da moda no Brasil. "O estilo é particular. Obedece às regras padronizadoras, mas não é escravo delas. Relaciona-se com a moda, mas não se entrega a todas as suas determinações."

Por esse conceito, o homem não se mostra preso à vaidade. A roupa lhe cai de uma forma natural: ele não quer "parecer" alguém, ele "é" alguém. E transmite a impressão desejada. Expressa sua personalidade, sua imagem, seus desejos e objetivos.

Uma das necessidades essenciais do homem de estilo é a de prestar atenção nele mesmo. Conhecer a si mesmo, identificar seus objetivos e pensar nisso deve ser um exercício diário na hora de se vestir. A roupa é um jogo, que deve considerar o juiz (o olhar alheio), o momento e o lugar onde se vai estar. Ser elegante também é estar adequado.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Cinderela tropical

A cachaça já teve seu tempo de Gata Borralheira, mas hoje é princesa nas mesas mais exigentes

Foi há 20 anos, em uma viagem de aventura pelo rio Araguaia, que encontrei o Holandês. Barba loura, olhos azuis e queixo de viking, falando um português nórdico, lembrava o capitão Nemo. Era mesmo capitão, só que de uma embarcação enferrujada de três andares, ao estilo das gaiolas, onde levava turistas aventureiros para passeios em torno da Ilha do Bananal. No tempo da seca, quando o nível das águas baixava, impossibilitando a navegação, o Holandês encalhava a nau na barranca da vila de Aruanã, transformada num estranho restaurante com inclinação de 45 graus. Assim como a figura do anfitrião, o serviço era surpreendente: uma deliciosa isca de peixe com molho de tomate apimentado, regada com uma cachaça dourada, perfumada e doce, combinação que me pareceu transcendental, ainda mais ao som de Paco de Lucia, que reverberava pela selva como num filme de Herzog.

Pode parecer estranho pensar em uma cachaça bebida tão longe e há tanto tempo, mas o Holandês passou a representar para mim uma marca da civilização. O refinamento vai com o homem onde ele estiver e produz as melhores coisas com o mais simples e nos lugares mais improváveis. Foi assim com aquele peixe apimentado e, acima de tudo, a cachaça do alambique local. “Foi envelhecida em tonéis de barro”, contou-se o capitão. “Não há nada melhor.”

Algum tempo atrás, os gourmets descobriram que a cachaça, o mais barato e popular destilado brasileiro, pode adquirir a condição de bebida para cavalheiros, prova da civilidade e da sua resistência, já que tem mais de 40 graus de teor alcoólico. Assim como o fondue nasceu pela mão dos mendigos, que juntavam os restos de queijo para forrar o estômago nos dias gelados da Suíça, boa parte da alta gastronomia nasceu de origens plebeias, melhorada com a técnica e o apuro de paladares sábios.

Gata borralheira, a nossa cachacinha ganhou seu momento de Cinderela com as versões premium espalhadas no mercado. Da conotação pejorativa, ela passou a ser sinal distintivo para bares e restaurantes que trazem rótulos especiais, além de alvo de diletantes, que vivem pesquisando, em busca da cachaça perfeita. 

“O interesse pelas cachaças premium reflete o aumento da qualidade da bebida. Os produtores passaram a ter mais cuidado e adotar processos de envelhecimento, o que melhora as características e o saber. Dentro da enorme diversidade de rótulos, encontrar a melhor cachaça é como buscar o Santo Graal. Até porque a noção de “melhor” é sempre pessoal, vinculadas as experiências sensoriais, como a minha passagem pelo Araguaia.

Estima-se que existam cerca de 4 mil rótulos de cachaça no Brasil, sem contar o produto doméstico. De longe o destilado mais popular do país, perde em volume de vendas somente para a cerveja. A cachaça é feita de duas maneiras. Uma é industrial, com a destilação em colunas de aço inox, que permite a produção em larga escala. Esse processo, semelhante ao de outras aguardentes, como a vodca, a tequila e o gim, está concentrada na mão de um punhado de empresas sediadas em São Paulo, Ceará e Pernambuco, que fazem 60% do mais de 1 bilhão de litros anuais de cachaça.

Mesmo as grandes indústrias procuram hoje produzir exemplares premium para conquistar clientes mais seletos. Com os processos de múltipla destilação, que tornam a cachaça mais pura, além do envelhecimento, o curtimento em tonéis de madeira e a aromatização, são produzidas industrialmente séries especiais da maior qualidade e diferentes sabores.

Os 40% restantes da produção vêm de 30 mil pequenos engenhos, que fazem a bebida tradicional – destilada em alambiques de cobre, como o uísque. No drinque ou puras, são ainda as melhores, sobretudo as envelhecidas.

Cerca da metade desses engenhos menores fica em Minas Gerais, o maior produtor de cachaça do país. Uma garrafa de Anísio Santiago, feita em salinas, no vale do Jequitinhonha, ao norte de Belo Horizonte, para muitos o epicentro dos melhores fabricantes do país, é vendida ao preço dos grandes uísques.

Também de Salinas vem a Lua Cheia, considerada uma das melhores pingas do Brasil, mais outras 35 marcas registradas e uma centena sem registro. De Araguari chega a GRM (Gosto Requintado Mundial), envelhecida em barris de carvalho, umburana e jequitibá rosa, lançada em 2002, em Paris, concebida como uma cachaça super-artesanal de exportação.

De São Tiago, perto de São João Del Rey, é a tradicional Espírito de Minas, encontrada em bons bares das grandes capitais. Em Minas, não há nenhum fabricante industrial de cachaça, o que se explica por origens históricas e culturais ligadas ao próprio espírito da bebida.

Minas Gerais e a cachaça artesanal caminham juntos desde o Ciclo do Ouro, iniciado em 1750, quando mais de 5 mil engenhos foram criados para produzir rapadura e aguardente de forma a atender os garimpeiros, que acorriam aos borbotões. Com a crescente frustração do garimpo de aluvião, eles desapareceram, mas os alambiques ficaram.

A essa particularidade juntaram-se os hábitos gastronômicos da sociedade mineira. A cachaça é uma parceira perfeita para a maioria dos pratos de sua cozinha tradicional. Difícil imaginar o tutu de feijão sem cachaça, tomada como deve ser, pura e em temperatura ambiente, num copo de vidro em miniatura. E muita gente não come uma boa feijoada sem uma caipirinha, servida em copo largo e raso, como o de uísque.

A caipirinha hoje é muito festejada no exterior, depois de aparecer em revistas domo a Wallpaper e a In Style. Sua difusão é a principal causa da multiplicação das exportações brasileiras de cachaça industrializada. A marca Sagatiba chegou a ser exportada para 13 países dos estados Unidos ao Taiti. Para abrir portas, foi testada pelo Beverage Testing Institute, o principal instituo de análise de bebidas alcoólicas dl mundo, nos Estados Unidos. No ranking do BTI, a Sagatiba ouro recebeu 91 pontos dos 100 possíveis, um a menos que a Sagatiba Velha, mistura de boas safras de cachaças de alambique, com dois anos de envelhecimento em tonéis de madeira.


Existem entre as cachaças verdadeiras raridades. A Sagatiba preciosa, edição limitada do lote de 1982, foi envelhecida 23 anos em barris de carvalho, descobertos em 2004 pelo fabricante – a casa Sagatiba, que funciona desde 1906 em Ribeirão preta. O conteúdo dos barris foi filtrado e acondicionado em garrafas exclusivas de vidro francês, produzidas pela Saverglass, em Paris. Recebeu 96 pontos do BTI, o que a colocou como a 26ª. Bebida destilada mais bem pontuada do planeta. Três garrafas da preciosa foram leiloadas na Christie’s, de Londres: primeira vez em que a nossa pinga apareceu na casa de leilões mais renomada do mundo.

A  história da cachaça vem do tempo em que os portugueses trouxeram a cana-de-açúcar na ilha da Madeira para o Brasil, a partir de 1532. Tecnicamente, há uma diferença entre a aguardente (designação geral de qualquer destilado) e a cachaça (proveniente da destilação do melaço resultante da produção de açúcar de cana. Devido a isso, a cachaça tem o sabor mais adocicado que o da vodca e outras aguardentes.

Em sua forma artesanal, a bebida é fermentada naturalmente pelo período de 18 a 36 horas. Depois, é volatilizada no alambique, escoando pelo capelo até a serpentina, onde volta à forma líquida. Descartam-se os 10% iniciais e finais da destilação, que contém impurezas, e aproveita-se o restante. A cachaça é incolor, mas pode ficar amarelada ou dourada com melados ou frações. O envelhecimento em barris também modifica buquê, corpo e sabor. Os de madeira fazem a bebida reagir, tornando-a mais macia, e pode mudar sua cor.

Os tonéis mais usados são o bálsamo, que produz uma bebida mais encorpada, e ais recentemente os de carvalho. A mineira Domina, voltada para o público feminino, como sugere o rótulo cor-de-rosa, envelhece em barris de jatobá, madeira absorvente de álcool e retentora de água, que a deixa mais suave.
Como produto do amor de quem faz, do cuidado especial inviável em artigos de larga escala, a cachaça estimula a produção para consumi próprio. Como resultado desse interesse elitizado, multiplicaram-se os bares especializados. No Rio de Janeiro, o Garapa Doida oferece centenas de rótulos. Assim como acontece com os vinhos, o restaurante Giuseppe Grill tem uma cara para o cliente escolher sua pinga. O Mangue Seco adotou o “cachacier”, os sommelier de cachaça.

É bom trazer a cachaça artesanal para a cidade grande, mas gostoso mesmo é pesquisa-la in loco. E cada um pode ter assim uma experiência mais interessante. A minha cachaça favorita é a envelhecida de Amélia, tradicional nas cidadezinhas da serra da Mantiqueira, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, e que pode ser encontrada no Bar do Marcelo, na praça central de Gonçalves, entre prateleiras de títulos brejeiros, como Pinissilina, Magnífica, caprichosa, Boazinha e Nega Fulô.

Deu vontade de viajar?