segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O Chianti cresce

Sergio Zingarelli, herdeiro de uma das mais tradicionais vinherias do Chianti, na Itália, promoveu nos últimos anos uma grandes transformação - no seu próprio negócio e no de seus vizinhos.

Num passado até recente, os Zingarelli apostaram nos chamados "Supertoscanos": vinhos com cortes de uvas estrangeiras, que visavam sobretudo a produção em massa para a exportação, principalmente para o mercado americano, que consome vinho pela uva, e não pela procedência. Todos os anos, vende pelo mundo cerca de 4 milhões de garrafas, das quais 1 milhão de seu vinho de mesa mais conhecido, o Rocca Delle Macìe.

 Os tempos, porém, estão mudando - e ele se tornou um dos principais renovadores do vinho italiano.

Primeiro, Zingarelli contratou um novo enólogo: Lorenzo Landi. E tratou de investir nas origens, o que significa utilizar novamente em suas garrafas predominantemente a San Giovese, uva autóctone da Toscana. "A qualidade era boa, mas tínhamos vontade de fazer algo mais", diz ele.


Zingarelli, o "signote Chianti": "vontade de fazer mais"
Desde o início dos anos 2000, Zingarelli passou a substituir os vinhedos plantados por seu pai em meados da década de 1970 por San Giovese, "uma uva difícil", segundo diz, porque demanda muita luz e uma técnica diferente, o que em décadas passadas, segundo ele, era "improponível".

Agora, o resultado desse trabalho começa a aparecer. Zingarelli apresentou recentemente seus novos vinhos numa degustação para jornalistas organizado pela importadora Decanter, em São Paulo. Sua proposta é retomar a tradição da uva san Giovese, aumentar a qualidade dos vinhos, sem perder o que a Rocca Delle Macìe possuía, que é sua capacidade de alta produção, a manutenção de um padrão de qualidade, venda e distribuição.

Os novos vinhos de Zingarelli levam mais San Giovese, sem tanta necessidade de uvas complementares. Foi uma certa surpresa: os Rocca delle Macìe, em especial, que nos acostumamos a ver nos supermercado, ganharam força. Os vinhos melhoraram em qualidade. E se tornaram mais caros.

A missão de Zingarelli agora é mostrar que vale a pena pagar mais por rótulos de sua casa. Alguns deles, como o que leva seu próprio nome, já vêm recebendo bom tratamento da crítica ao redor do mundo. 


O rótulo gran selezione: Chianti especial
O que Zingarelli faz com suas fattorias, está fazendo também por todo o Chianti, região conhecida pelos seus excelentes vinhos de mesa, onde estão também produtores e marcas entre as melhores da Itália, sem no entanto receber a mesma denominação. Ele é o terceiro presidente da história do Conzorcio Vino Chianti Classico, mais antiga associação de produtores de vinho do mundo, fundada em 1924. E, à frente da associação, vem introduzidno mudanças inteligentes para a valorização de todo o Chianti.

Designação genérica de uma área vinícola entre Siena e Florença, na Toscana, o Chianti é regulado por normas que vêm mudando recentemente (se considerarmos o vinho como uma tradição centenária). Até 1996, era obrigatório colocar uva branca no Chianti Classico. Desde então ele é 100% tinto. Para ser considerado Chianti, além de produzido na região, o vinho deve ter pelos menos 80% de uva San Giovese.


Tanto o Chianti quanto o Chianti Classico sempre foram conhecidos como vinhos de mesa: um produto mais barato, para acompanhar a refeição (chamado por alguns de "vinho gastronômico"). Recentemente, por meio da associação de produtores, Zingarelli promoveu a criação de uma terceira categoria, que permite a entrada de cortes diversos: Gran Selezione.

Para entrar nessa lista, é preciso passar pelo crivo de uma comissão constituída pela associação. Isso faz com que grandes e célebres produtores que estão na Toscana, especialmente no Chianti, como Antinori, possam ser considerados também "Chianti". O que valoriza toda a categoria.

Porém, é ainda na tradição que Zingarelli ainda aposta mais. Não há uva tão italiana quanto a san giovese, da qual se fazem vinhosbem estruturados, ensolarados, frutados, que nos remetem a um piquenique ao sol entre girassóis nos campos verdes da Toscana, pontilhados pelas colinas onde espairecem antigas e charmosas cidades medievais.

É lá, onde Zingarelli fomenta também o turismo, com relais onde se pode beber o vinho, respirar o ar e inebriar-se com o savoir vivre à italiana, que ele sabe estarem suas raízes. E de onde se espalha o sabor da Itália para o mundo.

Para quem quiser experimentar, aqui vai uma brevíssima ficha com alguns comentários sobre os novos vinhos do Rocca delle Macìe (que se pronuncia "roca dele machíe"):

1) Vermentino Occhio a Vento 2014. Vinho branco DOC da Maremma, influenciado pela terra pantanosa e a proximdade do mar, cor palha, levemente esverdeado, a 99,20 reais. Um ótimo vinho de mesa, complexo, aromático, a bom preço.


2) Morellino di Scansano Campomaccione 2014. Com 90% de San Giovese, 5% de merlot e 55 de cabernet sauvignon, é muito frutado e também amadeirado. 119,20 reais.

3) Chianti Classico família Zingarelli 2013. 95% San Giovese e 5% Merlot ("para dar ao vinho um pouco de gentileza", diz Zingarelli). Foi à final dos 3 Bicchieri do gambero Rosso. Surpreende, mas para quem conhecia o rótulo mais comercial da Rocca delle macíe, é difícil deixar de lado o preconceito e pagar o preço atual de uma garrafa: 131,50 reais.

4) Chianti Classico Riserva 2011. Feito em Castellini in Chianti, com 5% de cabernet sauvignon e 5% de merlot. 212 reais.

5) Chianti Classico Sant'Alfonso 2012. Este vinho tem uma boa história. O pai de Sergio comprou uma fatorria com uma área de 120 hectares, com solo argiloso, e mandou plantar as as vinhas. O enólogo da família, na época, disse que slo argiloso não servia para a viticultura. O velho Zingarelli, então, demitiu o enólogo e colocou outro para fazer o serviço. Criaram ali um cru, 100% san giovese, curtido em barris médios de carvalho francês. o resultado é um Chianit Classico com mais volume, mais estrutura e um tom mais pesado e ferroso. O melhor e degustá-lo no local, onde há um belo relais com nove quartos, uma das maravilhas da Toscana. Preço: 164,70.


6) Chianti Classico Riserva di Fizzano 2010. Com 85% san giovese, 10% cabernet sauvignon e 55 merlot, é um vinho com boa textura e muita acidez, que ainda que precisa e pode envelhecer. Vem da célebre colina de Fizzano, borgo perto de Volterra e San Gimigniano, uma das mais belas propriedades da Toscana e de toda a Itália, que a família adquiriu em 1984. Ali, eles abriram um relais que hoje tem 22 apartamentos e, claro, um restaurante. Da construção centenária se avistam os vinhedos, os olivais e um bosque, onde se pode passar os melhores dias de toda a vida. A garrafa custa 236,50 reais


O relais de Fizzano: o melhor que a vida pode proporcionar


7) Ser Gioveto, 2010. Homenagem do pai, que deu ao vinho nome do filho, é o supertoscano mais vendido no Brasil - fenômeno particular, que não se repete no resto do mundo, muito em razão do fato de aqui ser vendido a preços relativamente baixos para o seu padrão (236,50 reais). Com 80% de sangiovese, 20% de cabernet sauvignon e merlot, e 28.000 garrafas produzidas, é a primeira safra que leva a mão de Lorenzo Landi com esse rótulo.

8) Roccato 2009. Um supertoscano, com 50% sangiovese e 50% merlot. Não é um Chianti, mas fez parte da mostra: um vinho bem estruturado, que com a presença do cabernet é mais perfumado e rascante na língua.

Conclusão? Ah, a Itália...






quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Jamón bellota: a Espanha que desmancha na boca

A peça de jamón: com um vestido de Dior
Assim como os vinhateiros, os produtores do jámon espanhol mantém sua atividade como uma tradição secular, detalhista e sofisticada, da qual vem a fama do presunto ibérico. Vejamos o caso de Josep Ramón Llorens.

Simpático, falante e cioso de seu negócio, ele se dedica na Espanha a uma especialidade ainda maior: o chamado "jamón bellota". Utiliza porcos abatidos com dezoito meses, que durante três comem apenas bellota: a semente do carvalho, que é um tipo de castanha.


O resultado, que Ramón apresentou recentemente a um grupo seleto de jornalistas no restaurante Clos, em São Paulo, é um jamón diferente. Primeiro, na cor. A concentração de belllota na ração do animal faz que o o produto espalhe mais a gordura na carne, que se torna mais rosada, suave e macia.

Em lugar do jamón convencional, que às vezes se mastiga com dificuldade, o jamón ibérico de Llores quase desmancha na boca. Ele mesmo ensina como se deve comer o jamón: "primeiro chupado, depois mastigado", como uma uva. O sabor é aveludado, acastanhado, mais suave que o do jamón comum, e mesmo que o Pata Negra, o clássico e mais conhecidos dos jamóns espanhóis.

Os porcos criados por proprietários sob a supervisão da família de Llores são muito particulares. São todos de raça ibérica pura, pretos, ou cruzados com Durco-Jerseyem, numa proporção de 25%. Depois de queimada, cortada, salgada e colocada em repouso, processo de curtimento que leva quatro meses, a carne é pendurada  em adegas mantidas a níveis constantes de temperatura e umidade.

Llorens, à direita: tradição familiar
As janelas são abertas durante o dia e fechadas à noite, pelo período de dez a doze meses. No final, são ricamente embaladas em sacos vermelhos e depois caixas da mesma cor, que fariam jus a um paletó Armani ou um vestido Dior.

Nem todas as "safras" são válidas para venda. Quando a bellota não é suficiente, ou por qualquer razão se julga que o ano não foi ideal, não há produção. Agora, começa a ser vendida a safra 2010. Chegou à Casa Flora, o importador, um lote de 500 peças. O maior da exportação de Llorens.

Conhecer e manipular o jamón é uma arte. Na adega, a peça costuma recobrir-se de fungos, que ajudam a criar o seu inconfundível bouquet. Cada peça é testada com um furador de osso, que traz de dentro o seu perfume, antes de ser aprovada.

Colocada no garrote, a perna tem de ser cortada circularmente no jarrete, para separar a carne e gordura do pé. Llores recomenda o uso de duas facas: uma mais curta e lisa, para retirar a gordura superior. Outra mais comprida, serrilhada, para fatiar a carne.
A peça: a gordura volta depois como capa para a conservação 

A gordura nunca é jogada fora. Depois de cortada a peça, é recolocada sobre o jamón, pra conservá-lo, como uma manta.

Acompanhamento? Este jamón foi servido com vinho branco Gramona. Porém, vai bem com qualquer vinho tinto. Dê preferência, claro, aos espanhóis.




sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Hamilton, Senna e do que são feitos os mitos


No domingo dia 27 de setembro, grande prêmio do Japão, o inglês Lewis Hamilton, que começou a carreira usando um capacete amarelo em homenagem ao seu ídolo, conquistou o mesmo número de vitórias na Fórmula 1 que Ayrton Senna: 41.

Não que o número de Senna seja algum recorde. Vettel tem esse número de vitórias. O heptacampeão Schumacher teve quase o dobro. A importância é que Hamilton se espelha em Senna e persegue o mito. Certamente é o piloto que mais se parece com Senna, até porque estudou seu estlo de pilotagem a fundo e declaradamente se inspirou nele. Houve quem fizesse comparações. Ele é um grande piloto. Caminha para igualar outro feito de Senna, o tricampeonato, este ano. Faltou-lhe uma corrida para igualar um recorde de Senna, este sim, não batido até hoje: oito pole positions seguidas. Certamente Hamilton estará entre os grandes pilotos da história. Porém, não é como Senna. Uma coisa é ser um grande piloto. E um campeão. Outra coisa é se tornar mito.

Hamilton conquistou 41 vitórias com uma corrida a mais que Senna. Porém, as marcas não são comparáveis. Ele começou sua carreira na Fórmula 1 já na McLaren, uma equipe grande, em condições de ganhar corridas e o campeonato. Senna começou sua carreira na antes irrelevante Toleman. Conseguiu destacar-se justamente por obter resultados muito acima do que o seu equipamento permitia.

Depois, foi para a Lotus, onde conseguiu também uma proeza: vencer com um carro que era apenas médio. Senna não começou por cima. Teve que lutar muito para conseguir um carro de ponta. E ainda assim teve que seguir lutando. Hamilton não tem um adversário à altura em sua própria equipe: Rosberg está longe. Senna teve Prost.

Muita gente lembra da ultrapassagem de Nelson Piquet na curva sobre Senna, uma das mais célebres da Fórmula 1. A realidade é que Piquet andava de Williams, então um carro imbatível. Extraordinário é que Senna estivesse na frente, competindo com um carro bem inferior. Isso é o que Piquet nunca aceitou de Senna, e a razão pela qual tenta até hoje diminuí-lo, uma atitude não muito honrosa para um tricampeão. Piquet foi um grande piloto. Mas não conseguiu nem de longe a admiração que teve seu desafeto, cujo final trágico quase o santificou.

Piquet não está sozinho. Com seus sete títulos, Schumacher é o maior campeão de todos os tempos. Mas nunca se comparou a Senna. Schumacher se beneficiou da boa vontade dos empresários da Fórmula 1, que precisavam fabricar um ídolo incontestável, para levantar o esporte depois do terrível impacto da morte de Senna. Schumacher era um bom piloto, rápido e calculista, mas trapaceava para ganhar e era beneficiado pela equipe em que estava, onde não tinha concorrentes, e pelo sistema. Quando voltou a correr, sem esses privilégios, foi batido sistematicamente pelo companheiro de equipe, Rosberg, o mesmo que hoje come a poeira de Hamilton. Nunca foi admirado como Senna. E nem o destino trágico fora das pistas o transformou em mito.

Senna não teve adversários somente dentro das pistas. Teve contra si o stablishment: a administração viciada da Fórmula 1, que manobrava contra ele.  Foi também um símbolo nacional, por vencer e elevar a auto-estima de todo um país, numa época em que o Brasil procurava praticamente se levantar do mundo dos mortos. Foi um ídolo popular, que movimentava multidões. E sua imagem de lutador talentoso e obstinado criou milhões de fãs no resto do mundo.

O que fez Hamilton ter Senna como ídolo foi o que moveu a todos: uma paixão indestrutível, sua capacidade de perseguir um sonho a qualquer preço, incluindo a própria vida, e dividir esse sonho com os fãs.

Cenas que marcaram a memória de uma geração: Senna carregando a bandeira brasileira na volta da vitória, no dia em que o Brasil perdeu uma Copa do Mundo. Senna com o Toleman na chuva, voando em Mônaco, se aproximando de Prost, a bandeirada antes da hora, para que não ultrapassasse o francês. Senna agitando os braços para os mecânicos empurrarem seu carro e relargando para recuperar terreno e vencer de forma incrível no Japão, enquanto Prost ficava na brita - outra vitória que lhe foi tirada pelos cartolas.

Senna não desistia; mesmo quando acontecia algo errado, quase como milagre, sabíamos que ele estaria lá, de volta, lutando: sempre era possível esperar dele o impossível. Por isso, torcíamos para chover. Na situação mais difícil, os carros se equiparavam, prevalecia o talento, e ele aparecia como um super herói no meio do spray. Histórias fantásticas se contavam, ainda antes da Fórmula 1, como a do dia em que ao fim da corrida reclamou que tivera de guiar sem freios numa corrida em Silverstone. Os mecânicos riram. Ao colocar a mão nas rodas, porém, o espanto: as pastilhas estavam frias. Assim surgem as lendas.

Cheguei a conhecê-lo pessoalmente: não conversamos muito, mas pude apertar sua mão. No dia em que morreu, como tanta gente, chorei; não me juntei à multidão que saiu às ruas no seu funeral, mas fui, tempos depois, a uma homenagem no Memorial da América Latina, um dia ao mesmo tempo de tristeza e de festa. Ainda sofro com sua perda. Ao ver o video de Hamilton no carro onde ele brilhou, é difícil não entender como é genuína a emoção do piloto inglês. "É um dos melhores dias da minha vida", disse. Era sempre essa a sensação para nós, quando Senna estava naquele lugar.

PS: Hamilton escreveu sobre sua a importância de Ayrton em sua vida. Quem quiser ler, está aqui:
http://www.lewishamilton.com/post/senna-hero/

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O espumante com um certo X

O catalão Xavier Gramona serviu o exército, trabalhou em um banco em Londres e acabou assumindo um negócio que conhecia mais como uma brincadeira de infância, quando pisava as uvas nos lagares da bodega que leva o sobrenome da família, a quarenta quilômetros de Barcelona. "Até sair de Barcelona, eu nunca tinha visto uma garrafa com rótulo", afirma. "Quando a família bebia em casa, meu pai mandava buscar um vinho da nossa própria bodega".

Xavier Gramona (à esq.) na propriedade familiar: "Nunca
deixe isso desaparecer", disse-lhe Vásquez Montalbán 
Guardava na memória, também, um encontro com o escritor Manuel Vásquez Montalbán, então o mais quente romancista policial espanhol, criador do detetive Carvalho, um investigador meticuloso e de hábitos sofisticados, que assim como seu criador aparecia em seus thrillers bebendo taças de Gramona. "Nunca deixe isso desaparecer", disse-lhe o seu conterrâneo. "É uma preciosidade nacional."

Quando Xavier começou a trabalhar no negócio da família, a Gramona produzia 150 mil garrafas ao ano. Hoje são 500 mil. É, porém, uma produção ainda pequena se comparada a de gigantes como a Moët & Chandon, que produz 35 milhões de garrafas anuais. É uma bodega quase cult, incensada por alguns críticos e privilegiados que, como o detetive Carvalho, são investigadores dos mais complexos mistérios.

A Gramona utiliza principalmente uma uva característica da Catalunha, que deve à língua basca o mesmo X de Xavier: a Xarel.lo, tradição da casa, que transpôs as fronteiras espanholas depois da Segunda Guerra Mundial. Nessa época, foi quem abasteceu de espumantes a própria França - a terra do champanhe, que perdera quase toda sua produção durante a conflagração. Num tempo em que não havia muitos recursos, sua cava era a única que chegava à França intacta. Mais tarde descobriu-se cientificamente a razão: a uva Xarel.lo é a que possui mais oxidantes, uma propriedade que aumenta sua conservação.

O Gramona parece menos um espumante que um vinho branco frisante: as bolhas são pequenas e apenas dão um frescor inicial ao seu sabor. O que vem depois é um grande vinho branco, encorpado, rico em frutas, com algumas notas surpreendentes, como o abacaxi. E é levemente fumé (defumado) e tostado, característica de alguns grandes brancos. Assim como outros espumantes de alta categoria, pode ser servido não apenas antes da entrada como durante toda as refeição. Funciona com a comida como um toque divino.

Numa degustação no Bardega, no Itaim, em São Paulo, experimentei primeiro o Cava Gramona Allegro Reserva Brut, uma combinação de xarel.lo com Chardonnay e Macabeo, com 18 meses de crianza (contato com a borra) e segunda fermentação na garrafa. Tem já as características  Gramona, embora seja um varietal, e mais leve e refrescante. Preço compensador: 104,76 reais.

Cava Gramona - III Lustros Gran Reserva Brut Nature é 70% Xarel.lo e e 30% Macabeo; parece por isso mais forte, mais espanhol. É um vinho muito frutado e fumé, um espumante que rivaliza com grandes vinhos brancos do mundo, distinguido pela crítica: recebeu a medalha de ouro no Concurso Mundial de Bruxelas, Medalha de Ouro do Guia El País 2009, 4 estrelas Guia Vino y Gastronomía, entre outros.

O preço pode ser mais alto, mas é um negócio maravilhoso, se considerado o preço de outros grandes espumantes aos quais este pode se comparar, que custam no mínimo o dobro: 268,11 reais

Provei o Font Jui Xarel·lo: um vinho branco, que se destaca por ser 100% Xarel.lo. Colhido com cuidado, embarricado em carvalho francês, fica na adega um ano antes de ser vendido. Complexo, untuoso, pode ser servido com frutos do mar, massas e até mesmo com carne de porco e vitela, que teoricamente são acompanhados por vinhos tintos mais pesados. Outro grande negócio: 133,36 reais.

Uma das virtudes do Gramona é o equilíbrio. Há espumantes com muito gás ou muito salgados, o que acontece em geral para cobrir a ausência de notas mais interessantes ao paladar. E preserva sua riqueza mesmo à temperatura em que os espumantes são servidos, de 6 a 9 graus - sabemos que, quanto mais gelado o vinho, menos ele parece "aberto". Um pequeno milagre catalão.

Recebi uma garrafa  de Cava Gramona Imperial Gran Reserva Brut, que o importador quer promover. Mas esse... Vou reservar um bom momento para experimentar.

http://www.casaflora.com.br/busca/gramona

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Um belo desconhecido: o tinto da Peique, com a intrigante uva Mencía

Ao norte da Espanha, na província de Leon, o povoado de Vantuille de Abajo, com cerca de 200 habitantes,  fica entre uma muralha em ruínas (o Castro de La Ventosa) e o caminho mágico que leva a Santiago de Compostela. Uma região pedregosa e bela, na porção espanhola  entre a França e Portugal, dentro da pequena província conhecida como o Bierzo (o berço), derivado no nome original da antiga cidade fortificada pelos romanos, Bergidum Falvium. Ali, a família Peique dedicou-se a plantar a Mencía, uma uva autóctone, adaptada ao terreno inclinado, seco e sujeito ao clima tanto do Atlântico quanto do Mediterrâneo.

Na semana passada, como muita gente, parei um tanto cético diante da mesa de Peique na Enoteca Decanter, que promoveu uma degustação de uma dezena de vinícolas , entre chilenas, francesas e espanholas. Cético porque, também como muita gente, e a maioria dos céticos, não conhecia bem essa uva tão particular, nem o caráter da bodega, fiel à sua pouco conhecida uva e seu terroir. E a Peique surpreende com um vinho tão bom, mesmo fora dos esquadros da fama da vinicultura espanhola, concentrada nos célebres vinhedos da Rioja e suas célebres marcas, como Vega Sicilia.

Nem um cético absoluto deixaria de se encantar com os Peique à primeira prova. De forma geral, os Mencía da Peique são vinhos bem estruturados, equilibrados e ricos em aromas e sabores, que emanam  em profusão de cada taça. Melhor: a Mencía tem uma textura aveludada, o que faz de cada gole um verdadeiro deleite.

Num vinhedo pequeno, as uvas estão muito perto da bodega, o que garante maior frescor e qualidade do produto ainda antes da fermentação.Todos os vinhos de Peique são de uva Mencía, - variam somente em função da safra, dos anos da vinha e pequenos detalhes da produção. Pode-se ter certeza de beber um belo vinho mesmo das garrafas mais baratas, tanto quanto de que vale o preço das mais caras.

Os que experimentei:

Tinto Mencía Bierzo 2013. Tem todas as características da Mencía, ao preço mais em conta: 88 reais.

Ramón Valle Bierzo 2012. Um pouco mais pronto, buquê muito rico, eflúvios de cereja e outra frutas, um belo vinho a 118 reais.

Viñedos Viejos Bierzo 2010. Também Mencía, com a diferença de que é feito de uvas colhidas de vinhedos mais antigos, com 70 anos de idade - com raízes mais antigas, retira da terra mais sabores minerais. Fica 12 meses em barris, metade desse tempo em barris novos, outra metade em barris antigos. dessa combinação surge um grande vinho e a melhor relação entre custo e sabor do portfolio: custa 144 reais.

Selección Familiar Bierzo 2006. Vem dos vinhedos mais antigos, com 90 anos e mais teores minerais. Um grande vinho para acompanhar uma refeição mais pesada, como carne de caça. 318 reais.
Vinhedo da Peique no outono: solo seco e clima com
 influência do Atlântico e do Mediterrâneo

Luis Peique 2008. O top de linha da Peique, também dos vinhedos mais velhos, porém com um toque um pouco diferente do Selección: é fermentado em barricas de 500 litros com as uvas inteiras (sem romper). Pronunciado sabor de cereja, um grande vinho, que justificria o preço de 468 reais se os anteriores não fosse já quase tão bons quanto este a preços mais convidativos.

Grandes vinícolas, inclundo as europeis, se especializaram nos ultimos anos em investir em uvas como pinot noir, cabernet e outras, mais conhecidas. Utiliza-se cabernet sauvignon na Italia, assim como no Novo Mundo. A Peique, com sua uva tão particular, lembra como uma vinícola dedicada totalmente à uva autóctone pode ser original e alcançar o paladar universal. Ainda mais num lugar que, pelo próprio nome (Bierzo), parece bastar a si mesmo.

Onde encontrar: http://www.decanter.com.br/

terça-feira, 15 de setembro de 2015

A melhor amiga do homem

Acabo de ganhar de um amigo um grande livro, Cartas Extraordinárias, publicado no Brasil pela Cia das Letras, com excertos da correspondência pessoal de "pessoas notáveis". Um brilhante registro em texto e reproduções do momento íntimo de personagens históricos, entre políticos, cientistas e artistas, que mostra também o quanto a escrita está relacionada à personalidade - e ao nosso estilo.

Meisterstuck: pesa na mão e faz a escrita fluir suavemente
Mesmo nestes tempos digitais, em que usamos os dedos mais para deslizar sobre a tela transparente, escrever à mão é uma atividade essencial. Dizem os psicólogos que as crianças não podem deixar de exercitar a escrita manual, uma forma elementar de desenvolvimento da capacidade motora e cognitiva. E a escrita segue nos acompanhando pela vida, como um momento pessoal, em que a linguagem escrita e o desenho se misturam, de uma forma inconfundível de indivíduo para indivíduo. Nossa letra é uma outra forma de impressão digital. Por isso, é muito importante escolher uma boa companhia, capaz de nos ajudar na expressão.

Como escritor e jornalista, passei minha vida com uma caneta à mão. Tenho o hábito de levar um pequeno caderno a todo lugar onde vou. Ali rabisco pensamentos, desenhos, palavras, bilhetes, contas domésticas, tudo. Faço anotações para livros, poemas, lembretes. Coisas que escrevo só para mim mesmo.

Um caderno pessoal, quase um diário, é como estar em casa, em qualquer lugar. Uso nos aviões, porque não é aparelho eletrônico e portanto não precisa ser desligado na decolagem como tablets e celulares.

Carta de Elvis ao presidente, escrita no avião
Em suma, a caneta é a melhor amiga do homem. Uma companheira de todas as horas, que combina com a gente e deixe no papel algo que sintamos ser nosso. Algo com que a gente se identifica.

Minhas canetas preferidas são uma esferográfica Montblanc Meisterstuck ("masterpiece", ou obra de arte, em alemão). Pesa na mão, o que diminui o esforço e faz o traço de fluir suavemente. Porém, como a ganhei de presente de uma namorada quando tinha vinte anos, eu a uso mais em casa. Fica guardada numa gaveta de documentos, como uma relíquia.

Anotações de Charles Darwin
Para o dia a dia, uso mais as Parker Jotter, coloridas, e uma versão mais clássica, com o metal quadriculado num sutil relevo. A primeira delas, comprei numa farmácia há mais de vinte anos, em Nova York, onde decidi vagabundear por uns tempos, quando apenas sonhava me tornar um escritor. São elegantes, leves, como uma rápida pincelada, o que combina com meu jeito de escrever; sem serem caras ou ostentatórias possuem um design clássico, que remete aos anos 1960. Isto é, são da minha safra. E por fim: me acompanham há muito tempo. Ganharam a força do hábito.
As Parker Jotter e o caderninho Milquerius:
companheiros inseparáveis

Deixo uma sempre dentro do caderninho com capa de couro; prefiro o Milquerius, espanhol, flexível, resistente, que não solta as folhas. Tão bom quanto o Moleskine, usado por gente que vai de Dom Pedro II a Hemingway. Porém, mais barato.

Um homem não é um verdadeiro homem sem uma caneta. Olhe, pesquise, veja qual se identifica mais com você. Uma caneta, por mais cara que seja, nunca substitui as boas ideias. Mas ajuda a dar prazer ao ato de escrever, o que sempre azeita o cérebro e estimula a imaginação.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Por que amávamos Betty Lago


Existem atores que criam a chamada persona, um tipo que  repete sempre a si mesmo, porque é essecialmente a própria pessoa, algo indissociável. Assim era a atriz Betty Lago. Ela podia encarnar personagens diferentes, da madame à barraqueira, mas de certa forma fazia sempre a si mesma. Por isso, a amávamos - não pelos personagens que fazia, e sim pelo que ela era, sempre.

Mas por que a amávamos, mesmo?

Antes de mais nada, Betty era um modelo de elegância e refinamento. Não apenas por ter sido modelo, mas por gostar da moda, vir da moda, fazer moda. Com seus lenços no longo pescoço, era a imagem da mulher sofisticada, tanto na maneira de se vestir, de se portar, como de falar. Mesmo quando encarnava a mulher desbocada, era luxuosa, aberta, livre. Não há nada mais sexy que uma mulher elegante que se permite a pornografia. Betty podia falar de qualquer assunto, incluindo sexo, que saía com uma afetação cheia de graça. Como tudo.

Dela emanava uma superioridade aristocrática, que no entanto não era ofensiva, contrabalançada por uma maneira espirituosa de encarar a si mesma. Betty ironizava a imagem da "perua" ao mesmo tempo em que a assumia. E na realidade não era uma perua. Era, no sentido de criar arte, influenciar o comportamento, uma intelectual.

Betty Lago representou, em certa medida, a imagem da mulher inteligente, livre e perfeita, da melhor forma. Sua beleza não era a óbvia, grega, clássica. Tinha mais a ver com o charme e a construção do estilo. Betty tinha um nariz saliente, que para muitas mulheres seria candidato à cirurgia plástica, mas que ela conservou como uma marca diferente, individual, que trazia a mesma personalidade com que usava suas roupas.

Sim, Betty tinha beleza, classe, educação, fama, bom humor. Só não teve uma vida longa; ao morrer aos 60 anos de idade, em virtude de complicações de um câncer, deixa saudade e essa sensação de que o perfeito é muito passageiro, o belo é fugaz e tem de ser aproveitado enquanto dura.

Ficará como uma Greta Garbo brasileira, preservada pelas circunstâncias que a levaram tão cedo, impedindo-a de envelhecer - embora saibamos que, com seu imenso charme, Betty também saberia envelhecer muito bem.

Para lembrá-la, aqui vão algumas fotos aos leitores de O Homem Casual, capazes de tirar de qualquer um aquele secreto suspiro.